<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><rss xmlns:atom='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' version='2.0'><channel><atom:id>tag:blogger.com,1999:blog-19260002</atom:id><lastBuildDate>Thu, 10 Dec 2009 22:09:30 +0000</lastBuildDate><title>SACO CHEIO NÃO DOBRA</title><description>SACO VAZIO NÃO SE PÕE DE PÉ</description><link>http://oantunes.blogspot.com/</link><managingEditor>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</managingEditor><generator>Blogger</generator><openSearch:totalResults>51</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-2831698046418981013</guid><pubDate>Mon, 25 May 2009 17:54:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-05-25T19:00:20.555+01:00</atom:updated><title>Cão</title><description>&lt;div&gt;&lt;span style=";font-family:Verdana;font-size:10;"  &gt;Não há dúvidas. A inércia é cúmplice da memória. Só isto pode explicar a quantidade de vezes que relembro a morte do meu cão, fez ontem dois anos e sete meses, numa operação aparentemente simples às duas vistas. Foi uma merda. Não&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:Verdana;font-size:10;"  &gt; gostei que o gajo tivesse ido desta para melhor. &lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:Verdana;font-size:10;"  &gt;Ao mesmo tempo, trouxe alguma emoção à minha vida. &lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:Verdana;font-size:10;"  &gt;É. Se pensar bem, até foi fixe o meu cão ter batido as botas. Até, se não fosse pela chatice, comprava um cão em fase terminal só para poder voltar a sentir toda aquela adrenalina dos preparativos para o enterro, e isso. Foi um dia altamente. &lt;/span&gt;&lt;span style=";font-family:Verdana;font-size:10;"  &gt;Enterrei o animal no quintal dos meus pais, debaixo do limoeiro. Podia ter optado por tê-lo simplesmente cremado ou algo assim, mas aproveitei para convidar o Daniel e o Furas para virem cá a casa e ajudarem-me com a abertura da cova. Abri umas cervejas e pus um chouriço a assar. Estava calor e a minha mãe tinha aproveitado para lavar os cortinados que estavam a secar ao fundo do quintal, numa espécie de estendal optimizado, que o meu pai montou ao longo de vários domingos e alguns feriados. Com o sol a bater de frente, não pude reparar como o raio dos cortinados eram feios, mas notei que o estendal parecia tombar para o lado direito. Depressa me concentrei na tarefa e comecei a cavar. O Daniel e o Furas são uns tipos que não se põem com merdas. Depois de abrir, metemos o bicho lá para dentro num instante. Quando tínhamos a terra toda posta por cima do cão, o Furas cuspiu para lá e disse: "Foi uma merda teres morrido. Mas caga nisso, cão". Depois continuamos nas minis e o Daniel começou a falar nas mamas da Sandra da papelaria. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-2831698046418981013?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2009/05/cao.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-2064775829414999178</guid><pubDate>Sun, 17 May 2009 16:53:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-05-17T18:00:03.293+01:00</atom:updated><title>Nada ou o Antunes</title><description>‐ Caro Antunes, você é um procrastinador.&lt;br /&gt;‐ Vou morrer?&lt;br /&gt;O homem que está à minha frente é calvo e&lt;br /&gt;bexiguento. Pergunta‐me:&lt;br /&gt;‐ Você é parvo?&lt;br /&gt;Pergunto eu:&lt;br /&gt;‐ Vou morrer disso?&lt;br /&gt;‐ Não Antunes, não vai morrer disso. Você é&lt;br /&gt;diferente. Do tipo imortal.&lt;br /&gt;Parvo. Esquece‐se, o burro, que se não fosse&lt;br /&gt;a minha avó quem estava morto era ele. Era&lt;br /&gt;cozinheira na casa de férias onde os&lt;br /&gt;ascendentes do palerma atiravam balas a&lt;br /&gt;perdizes, jogavam monopólio e coçavam o&lt;br /&gt;rabo de oito em oito minutos. Quando era&lt;br /&gt;puto, descobriu dentro de um saco de pão&lt;br /&gt;uma coisa "paecida coum caamélo" disse, o&lt;br /&gt;parolo; minutos depois estava roxo,&lt;br /&gt;entupido com o anel de brasão do velhote.&lt;br /&gt;Como forma de agradecimento, fez‐se de&lt;br /&gt;porreiro. Mas de porreiro tem apenas&lt;br /&gt;talvez apenas as botas que levava para a&lt;br /&gt;neve. Digo:&lt;br /&gt;‐ Isso são boas notícias.&lt;br /&gt;A cara do médico está encorrilhada, parece&lt;br /&gt;nata fresca. Diz:&lt;br /&gt;‐ Não seja estúpido Antunes.&lt;br /&gt;Sempre tive noção da minha estupidez, não&lt;br /&gt;preciso que este badameco venha para aqui&lt;br /&gt;enunciar verdades universais. Além do&lt;br /&gt;mais, desconhece que ser estúpido pode dar&lt;br /&gt;jeito quando fazemos xixi para uma valeta&lt;br /&gt;ou quando passamos à frente um tipo no&lt;br /&gt;supermercado “Coitado, é estúpido.”&lt;br /&gt;Estúpido não, um esperto que se faz de&lt;br /&gt;estúpido, que é diferente. Não vejo&lt;br /&gt;nenhuma estupidez nisso. Mas adiante.&lt;br /&gt;Viro‐me:&lt;br /&gt;‐ Vai continuar a insultar‐me?&lt;br /&gt;Reparo que enterra as pontas dos dedos no&lt;br /&gt;espaço grotesco que são as suas narinas.&lt;br /&gt;‐ Ouça uma coisa, você quer que o trate ou&lt;br /&gt;não?&lt;br /&gt;‐ Ainda não disse o que tenho.&lt;br /&gt;‐ Quer saber?&lt;br /&gt;Lembro: A última vez que o vi foi em 1992.&lt;br /&gt;Tinha entrado numa espécie de greve&lt;br /&gt;verbal, sendo que estava há mais de seis&lt;br /&gt;dias sem dizer ou escrever o que quer fosse.&lt;br /&gt;O motivo tinha sido uma aposta com o filho&lt;br /&gt;do porteiro. Ele disse que eu não conseguia&lt;br /&gt;estar calado, eu disse que sim. Ao fim de&lt;br /&gt;pancada de meia‐noite, a minha mãe enfia-me&lt;br /&gt;no carro. Disse: “Graças a Deus que o&lt;br /&gt;Sôtor tem agora uma aberta”. Saco um&lt;br /&gt;kleenex que o meu pai traz religiosamente&lt;br /&gt;debaixo do banco do morto, escrevo: O&lt;br /&gt;Sôtor é um asno. Aquilo foi como que acabar&lt;br /&gt;a greve de forma gloriosa e triunfante, se é&lt;br /&gt;que me faço entender. Hoje, reparo que&lt;br /&gt;consegue estar ainda mais feio, parece que&lt;br /&gt;lhe cresceu uma manta de pêlo nos braços,&lt;br /&gt;aquilo está com um volume estupendo.&lt;br /&gt;Penso no tapete do meu quarto de banho,&lt;br /&gt;uma micro fibra plana e desbotada.&lt;br /&gt;‐ Você é um procrastinador, quer que&lt;br /&gt;repita?&lt;br /&gt;É nojento. Os dedos continuam&lt;br /&gt;praticamente estacionados nos buracos do&lt;br /&gt;nariz. Pergunto:&lt;br /&gt;‐ Um quê?&lt;br /&gt;‐ É o seu verdadeiro problema. Tudo o&lt;br /&gt;resto é uma consequência disso.&lt;br /&gt;‐ Tem cura?&lt;br /&gt;O tipo olha para mim como se eu fosse o&lt;br /&gt;aleijadinho a quem os putos apontam o&lt;br /&gt;dedo: “Ó mãe olha aquele”.&lt;br /&gt;‐ Está flácido por dentro e por fora.&lt;br /&gt;‐ Procrastinado e flácido.&lt;br /&gt;Isto piora. Levanto‐me com as pernas a&lt;br /&gt;tremer. Este palerma está a abusar.&lt;br /&gt;‐ Acalme‐se Antunes.&lt;br /&gt;Roda o monitor do computador para mim.&lt;br /&gt;Aponta:&lt;br /&gt;‐ Ora repare. Está aqui tudo.&lt;br /&gt;Tenho o wikcionário à minha frente, vejo&lt;br /&gt;mal ao perto, mas esforço‐me um pouco.&lt;br /&gt;Consigo ler a definição para procrastinar:&lt;br /&gt;1. empurrar com a barriga&lt;br /&gt;2. deixar para o dia de amanhã&lt;br /&gt;3. adiar&lt;br /&gt;4. protelar&lt;br /&gt;5. demorar&lt;br /&gt;6. espaçar&lt;br /&gt;7. deferir&lt;br /&gt;8. usar de delongas&lt;br /&gt;Usar de delongas? Acho a expressão curiosa&lt;br /&gt;e penso como seria interessante debruçar-me&lt;br /&gt;um pouco mais sobre a utilização das&lt;br /&gt;palavras, mas a necessidade vital impõe‐se.&lt;br /&gt;Percebo de imediato que é urgente deixar&lt;br /&gt;para o dia de amanhã esta palhaçada.&lt;br /&gt;Agarro dentro do bolso do casaco o pacote&lt;br /&gt;de amêndoas que parece estar prestes a&lt;br /&gt;rasgar. Atiro‐o para cima da mesa. Sinto‐me&lt;br /&gt;cansado e agora uma nuvem de gases&lt;br /&gt;invade a zona dois dedos abaixo da barriga.&lt;br /&gt;‐ A Páscoa já foi, caro Antunes – diz o&lt;br /&gt;médico.&lt;br /&gt;‐ Eu sei padrinho. Mas resolvi procrastinar&lt;br /&gt;consigo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-2064775829414999178?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2009/05/nada-ou-o-antunes.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-7423903152962621959</guid><pubDate>Mon, 04 May 2009 18:32:00 +0000</pubDate><atom:updated>2009-05-04T19:36:08.705+01:00</atom:updated><title>As coisas arrumadas</title><description>Não gosto de arrumadores. Fico enjoado só de olhar para aqueles farrapos, com sebo até aos olhos e irresolúveis problemas do foro oral. Não gosto, pronto. Estou no meu direito. Outro dia, tropecei numa coisa dessas. Ou melhor, uma coisa dessas tropeçou em mim, estava eu a escassos metros do meu veículo. Senti um cheio nauseabundo, uma mistura de mofo e humidade, qualquer coisa de indescritível que emanava da espécie de manta rota que trazia pelos ombros. Disse ele:&lt;br /&gt;- Uma moedinha.&lt;br /&gt;Nunca trago moedas no bolso, mas tinha pago a raspadinha com vinte euros e o tipo do quiosque: "Vai ter de ser assim, que a minha filha levou-me o trocado".&lt;br /&gt;- Desaparece.&lt;br /&gt;O fóssil estende a mão. É uma mão magra e enrugada. Parece a mão do meu tio avô Alberto.&lt;br /&gt;- É para beber um copo de leite.&lt;br /&gt;Não tem vergonha. São dez da noite e estamos numa zona despida da cidade. O máximo que pode encontrar são vestígios de fezes caninas pelos passeios e meia dúzia de carros abandonados. Para beber leitinho, tinha de andar pelo menos sete minutos a pé até ao café central que entretanto fecha porque já são dez e meia e tudo o que aconteceu nesse dia foi servir três cafés e quatro bagaços.&lt;br /&gt;- Leite faz mal.&lt;br /&gt;O tipo reage. Noto pregas a formarem-se em volta dos olhos e o maxilar encovado salienta a boca fina e branca que parece tremer desalinhada.&lt;br /&gt;Não comeces a chorar palerma. Agora não. Continuo:&lt;br /&gt;- Tenho de ir.&lt;br /&gt;Penso nas gavetas organizadas da prima Lurdes, tudo identificado por cores, tamanhos, letras, tipo. Depois, consigo ver ao fundo da rua um contentor gigante amarelo que leva tudo o que não presta. A minha cidade está arrumada. Assim como mundo. O senhor que gere o espaço para aparcamento de viaturas já não está ali.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-7423903152962621959?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2009/05/as-coisas-arrumadas.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-6973683862398517497</guid><pubDate>Tue, 18 Nov 2008 18:47:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-11-18T23:45:26.026Z</atom:updated><title>Novembro à chuva  ou Axl Rose só exististe porque eu já tive doze anos</title><description>O Axl Rose está gordo. O Axl Rose está gordo e velho. Procuro no youtube o Axl Rose do tempo em que lembro do Axl Rose. À memória; e o cliché é tanto, não sei como fugir. Não sei como se põe aqui. Como se pode dizer, escapar ao que fomos?&lt;br /&gt;Conheci o Axl Rose quando tinha doze ou treze anos e as hormonas aos saltos. O Axl Rose costumava ter um lenço apertado na cabeça, voz aguda, cabelo passado a ferro pelas costas, calções curtos de lycra, um blusão com estrelas brancas em fundo vermelho e azul.&lt;br /&gt;É estúpido? Não consigo precisar o que encontrava, como não consigo dizer o bocado de mim estampado no romantismo piroso dos Armas e Rosas. Só o nome, que coisa tão. Quando comecei a escrever isto pensei que tinha muito a dizer, mas talvez não esteja preparado para um incursão ao que fui. Não podemos buscar o que já foi. Está altura de deixares essa nostalgia doentia, Antunes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje não é ontem:&lt;br /&gt;&lt;a href="http://image.guardian.co.uk/sys-images/Arts/Arts_/Pictures/2008/04/11/axl460.jpg"&gt;http://image.guardian.co.uk/sys-images/Arts/Arts_/Pictures/2008/04/11/axl460.jpg&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-6973683862398517497?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2008/11/novembro-chuva-ou-axel-rose-s.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>4</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-128275710915490209</guid><pubDate>Thu, 30 Oct 2008 09:28:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-10-30T09:36:19.190Z</atom:updated><title>parvoíce matinal</title><description>Depois da ausência, volto com náusea q.b. e algumas considerações insignificantes sobre a alergia que me tem atacado, por completo, as narinas e a parte superior dos olhos, quase a chegar à testa. É do tempo, dizem alguns. Eu digo não, não é do tempo - é de mim. Aqui há tempos, o senhor Azevedo matou o cão malhado da Matilde. Disse entre bocejos e os faróis multiplicados em pequenos vidros na estrada que o conduzia até Gondomar: não tive tempo de travar. O tempo serve desculpa para tudo, para isto: por uma questão temporal, não tenho a cabeça disponível para procurar outros exemplos. Ah. O que quero mesmo dizer é que já nasci cansado e, por vezes, o que trago comigo é nada, roupa interior e uma camisola que me está larga. Não me interpretem mal, as coisas podem ser outras na óptica redutora das teses psicanalíticas - na minha reles opinião de campónio deprimido, isto é só, e apenas, a consequência grave da nossa total privação ao paraíso que só Eva conheceu, essa vaca egoísta. Porque os dias são chatos e os camelos com que me cruzo todas os dias são chatos e parvos - e uma pedra à beira deles é o mar, se me faço entender. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Podem esquecer, eu não me lembro de nada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-128275710915490209?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2008/10/parvoce-matinal.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-8742024974648463960</guid><pubDate>Tue, 29 Jul 2008 17:11:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-07-29T19:30:30.543+01:00</atom:updated><title>3,401,905</title><description>Vi a mãe da Raquel Pereira duas vezes. Uma vez no cabeleireiro onde costuma fazer a &lt;span style="font-style: italic;"&gt;mise&lt;/span&gt;, a outra em sua casa onde vive com Raquel Pereira, sua filha única, e onde as memórias do marido infiel permanecem propositadamente espalmadas entre as capas de um bonito álbum de fotografias. Tudo o que posso dizer sobre a mãe da Raquel Pereira é passível de ser resumido nesta palavra: parva. É também uma forma de vos poupar algum tempo e acabarem rápido com esta inútil leitura. Indo à questão fundamental:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estou sozinho com a Raquel Pereira, no seu quarto decorado a papel de parede cor-de-rosa quando ela me estende o copo e diz: Dou-te cinquenta paus se beberes isto. Eu acho justo; cinquenta paus naquela altura era muito dinheiro. O copo está cheio de vodka mas, assim a olho nu, as semelhanças com água do fastio, por exemplo, são bastante evidentes.&lt;br /&gt;A Raquel Pereira tem a pele branca; gosto analisar com atenção as sardas que circundam o seu nariz. Naquele momento estou concentrado nos seus brincos -  são dois papagaios amarelos. Diz: É água. Vejo caganitas metálicas estacionadas nos seus dentes; um sorriso mais bonito, é só uma pequena correcção, o pai que a convenceu; o único a quem obedece, à mãe só lhe falta bater. Um segundo após a tonight, tonight dos Smashing Pumpkins dentro do morango gigante que é aquele quarto, a Raquel Pereira pega no meu braço e não sei porquê mas aquele aparelho não lhe ficava mal, aliás, até achava aquilo sexy. Moderno talvez seja a palavra correcta, eu achava o aparelho da Raquel Pereira moderno e isso tornava-a, naturalmente, apetecível.&lt;br /&gt;No meu tempo, nada de youtubes, fui agora ver, curiosidade porque falo disto, para tonight, tonight:  Views:  3,401,905.&lt;br /&gt;Continuando, ela pega em mim e abraça-me; encosta o lado direito da sua cara ao  lado direito da minha cara e tem a boca perto do meu ouvido. Nesta altura sinto que sou estúpido, não por alguma razão em especial, mas só pelo simples facto de não ser possível alguém não se sentir estúpido, afinal de contas. Ela cheira a cereja, não sei se do quarto, se de algum perfume. O que posso precisar é que o cheiro é forte e já está dentro da minha boca. É aí quando ela se afasta, pega no copo. Não diz nada. Eu também prefiro  estar calado. Bebo aquilo depressa. Depressa, depressa, afinal não é água. Cinco foram os minutos que permaneci de pé, uma estimativa. Pouco depois a Raquel Pereira está deitada ao meu lado na sua cama, uma colcha com pequenas flores; diz-me ao ouvido coisas que nunca fui capaz relembrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                                                                                                 &lt;span style="font-style: italic;"&gt;                   &lt;span style="font-size:85%;"&gt;     Para a Ana, "pequena-grande" leitora, que não gosta de ler em ecrãs de computador. E com razão. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-8742024974648463960?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2008/07/3401905.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-7434685409697840075</guid><pubDate>Mon, 02 Jun 2008 18:34:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-10-30T09:47:10.845Z</atom:updated><title>A melancolia é de cristal</title><description>Pertenço à raça dos que preferem ser crianças para sempre. Apesar da cerveja. As crianças normalmente não gostam de cerveja. Eu gosto. Gosto bastante. Cerveja talvez seja a coisa que eu gosto mais, a seguir aos pastéis de bacalhau da senhora Arminda. Também gosto de me rir dos outros, mas estou cansado que ninguém me leve a sério, até na padaria. Passou-se anteontem, tinha vindo de jogar futebol com cinco ou seis (éramos dez na realidade) brutos que gostam de jogar descalços e que acabam com os pés a sangrar e unhas ao dependuro. É estúpido, pois, mas é mesmo o que eles são. Estúpidos. Estava a dizer, o jogo nunca foi uma coisa que me agradou, quer dizer, falo do jogo em grupo, o jogo onde há uma equipa contra outra equipa. No fundo, tenho pena de todos os  jogadores de equipas e aproveito para exprimir, aqui, a minha total compaixão para com todos os jogadores de equipas. Cedo cheguei à conclusão que jogadores são os que estão de fora, atentos à figura de parvoíce colectiva que existe em qualquer equipa de seres humanos. É parolo todo aquele entusiasmo em torno do “um por todos, todos por um”, é parolo e saloio. É primário. Que se lixe o outro. Não tenho por hábito esfolar qualquer parte do corpo, muito menos no âmbito de um jogo pateta onde nem sequer há dinheiro ao barulho. Por dinheiro, sou capaz de tudo. Uma vez, por cinquenta escudos, bebi um copo de plástico de trinta e três centilitros cheio de vodka. Desculpem, correcção: não bebi o copo, bebi o que estava dentro do copo, se bem me entenderam. Tinha catorze anos e a cabeça rodou, um pouco, alguns minutos após a ingestão do líquido. Acredito que esse tenha sido um momento mágico, pois nunca mais fui o mesmo.  Estava no quarto da Raquel Pereira que era uma tontinha que tinha uma paixão por mim porque eu seduzia as professoras com palavreado floreado que aprendia com as tias do meu pai e fatias de bôla de carne que a minha avó me metia no bolso da pasta. Acho que era por causa disso, nunca fui bonito, nem abdominais nem nada. E, de repente, estas coisas que escrevo são capazes de atravessar, devagarinho, as entranhas mais cínicas da minha pessoa. E isso é nostálgico, tão nostálgico que sou obrigado a levantar-me e ir buscar uma cristal mini para segurar a lágrima. Chorar não é comigo, chorar para fora. Mas, agora mesmo, é como se estivesse em pelota. A sério. Acontece quando digo qualquer verdade. E a bôla de carne da minha avó não consegue ser igualada por mais nenhuma. A Raquel Pereira não entrou na universidade. Ajuda numa loja decoração e tem muito jeito para vender monos, menos mal. O que aconteceu na padaria, já não importa. Vou-me sentar um bocado no sofá.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-7434685409697840075?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2008/06/melancolia-de-cristal.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-8100085767025650743</guid><pubDate>Tue, 15 Apr 2008 17:55:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-05-15T16:03:57.219+01:00</atom:updated><title>É mutante</title><description>O Pedro nunca pisou cocó. O Pedro nunca pisou cocó e também nunca piscou os olhos, nem quando foi o eclipse solar, garanto eu que estive lá. Quando foi do eclipse solar, o Pedro franziu ligeiramente o nariz, franziu um bocadinho e serviu-se da mão direita para fazer uma espécie de pala de boné improvisada, mas nunca piscou, nunca piscou por um só segundo, os olhos. É formidável, não sei como é que ele faz. Do cocó é mais fácil, uma questão de sorte também. Agora do piscar, não percebo. Confesso que foi por isso que me afastei do artista, logo após o eclipse solar, em 1999. Comecei a desconfiar que o tipo fosse um mutante, ou algo assim. Eu sou do tipo porreiro, que é amigo de toda a gente, até de animais. Mas com mutantes sempre fui um pouco para o reservado. Acho melhor. Acontece que fui encontrar o Pedro na sala de espera do dentista. O que vou relatar de seguida pode ser impressionante para os mais medricas.&lt;br /&gt;- Atão pá!&lt;br /&gt;Dou um aperto de mão ao Pedro (ou deverei dizer mutante?). É nesta altura que penso que o perdão talvez seja um sentimento que deva cultivar um pouco mais, que é uma coisa que se pode ir treinando enquanto se anda a pé ou se faz cocó, por exemplo. Era o meu debute naquele consultório. Tinha, recentemente, abandonado a Dra. Raquel porque a senhora cheirava a suor de cavalo e quando me arrancou os sisos chegou quase a abraçar-me dizendo que eu era bravo, paciente exemplar, um herói dos tempos modernos. Há decisões fatais, à custa da minha impaciência, estava em casa do Dr. Flávio com Pedro, o eventual mutante, a dois segundos de mim.&lt;br /&gt;- Não sabia que vinhas a este dentista.&lt;br /&gt;Merda, pensei. Trinta graus lá fora e mesmo à minha frente uma camisola de lã e um par de calças de fazenda a embrulhar aquele rapaz. Muito bem, isto promete.&lt;br /&gt;- É a primeira vez.&lt;br /&gt;Igualzinho, até agora nem um pisc-pisc. Nem um. Arrgh, que isto enerva, isto enerva, pensei.&lt;br /&gt;- É porreiro, o gajo.&lt;br /&gt;- Ainda bem. A outra arrancou-me os quatro sisos duma só vez. Fiquei com a cabeça feita numa bola.&lt;br /&gt;O Pedro riu-se um bocadinho da minha desgraça. Reparei com atenção, o maluco tinha na mão uma revista que o ensinava a escovar os dentes.&lt;br /&gt;- Olha, tens visto o Mané?&lt;br /&gt;- Nunca mais o vi.&lt;br /&gt;Uma menina de estatura invulgarmente baixa chama pelo nome: Pedro Luís, pode entrar. Pensei, estou safo, finalmente. O Pedro estende-me a mão.&lt;br /&gt;- Gostei de te ver, rapaz.&lt;br /&gt;Gostei de ter ver, rapaz? Pensei. Fiquei mudo. Estendi-lhe a mão porque aprendi a ser agradável. É melhor, disse a minha mãe dentro da minha cabeça. É bom que toda a gente se entenda. É, salvo raras excepções, respondi-lhe telepaticamente. O Pedro foi ter com o Dr. Flávio. Foi nesta altura que pensei que até era possível, sim na cena do eclipse, até seria possível, talvez, apesar de tudo, mas quando há um aparelho, daqueles que enquanto comicham o dente têm a proeza de lançar esguichos de água pela cara toda. Foi nesta altura que pensei que quando o esguicho se encavalita pela boca acima até às orelhas, até à testa. Foi um impulso. Entro pela porta, Dr. Flávio, tem de compreender. Este pode ser o único exemplar no planeta. Possuído por qualquer coisa que até hoje não sei precisar, começo a lançar esguichos de cuspo da minha própria boca, tentando alcançar a vista amaldiçoada (acabaria por ter a certeza absoluta) daquele ser improvável, mas sem sucesso, já a menina de estatura invulgarmente baixa agarrava os braços à volta da minha cintura e berrava, temos um louco aqui dentro senhor doutor, temos um louco aqui dentro senhor doutor, é melhor chamar a polícia. O verdadeiro louco, sim, aquele ali deitado na marquesa, é que nem um só pestanejar, um só pestanejar enquanto me via a ser arrastado pela menina de estatura invulgarmente baixa e um Dr. Flávio visivelmente incomodado, a Vergonha no meu consultório, o que é que as pessoas vão dizer, logo agora que isto começava a andar, pensava ele. A sala cheia de gente, tenho de começar a dar mais atenção às horas, meu deus, cancelar os almoços com a Denise, afinal está feia e com alguma celulite, assim ninguém na sala a assistir a este circo, oh meu deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou cá fora. Estou cá fora, do lado do passeio. A minha respiração é estranha, irregular. Também estou tonto, mas no ar está um cheiro a borracha queimada, não ajuda. O sinal está vermelho para peões. Podia ser um carro, pensei.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-8100085767025650743?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2008/04/exerccio-n1.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-4806322585565983213</guid><pubDate>Mon, 31 Mar 2008 16:58:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-04-07T17:34:05.467+01:00</atom:updated><title>Chispalhada</title><description>Se tivesse dinheiro comprava um aparelho auditivo para a minha irmã. A minha irmã não é surda, mas para lá caminha. Para lá corre, melhor falando. O meu cunhado era um homem portador de uma audição razoável até meados do Inverno passado, altura quando começou, também ele, a sofrer do mesmo mal. Casaram-se há dois ou três anos, sob o olhar desconfiado de um padre caquéctico e uma plateia visivelmente impaciente. Passaram a noite de núpcias a escassos quilómetros de casa, simpática residencial central, propriedade da prima da madrinha do noivo e, no dia seguinte, banharam-se pateticamente numa cachoeira algures nos Açores. Horas antes, a minha irmã tinha sido mandada parar no aeroporto por carregar três latas de chispalhada no nécessaire. Quando a autoridade pergunta, Chispalhada? A minha irmã responde prontamente, Sim, chispalhada. Segundo o relato da minha irmã, a autoridade não gostou da sua resposta e continuou assim, Vai levar três latas de chispalhada para os Açores? Sim, vou levar três latas de chispalhada para os Açores, disse a minha irmã, A menos que o senhor me impeça. O telemóvel da autoridade tocou ao som do thriller de Michael Jackson, ele atendeu dizendo isto, Então Maria? Qual foi a desculpa? A Maria lá disse qualquer coisa e depois a autoridade falou, Eu logo vi, não o deixes sair que eu vou já para casa. Desligou e disse ao meu cunhado empenhando a lata de chispalhada como se tratasse de um troféu, Diga-me uma coisa, tem a certeza que quer levar isto consigo? O meu cunhado terá dito, Sim, essas latas de chispalhada são minhas, gosto muito de comer chispalhada senhor agente. A autoridade terá sorrido cinicamente e a minha irmã colocado novamente as três latas de chispalhada no nécessaire.&lt;br /&gt;To be continued...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-4806322585565983213?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2008/03/chispalhada.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-1130751473396691846</guid><pubDate>Wed, 19 Mar 2008 17:59:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-03-19T19:32:37.197Z</atom:updated><title>Neste domingo estarei com uma intoxicação alimentar</title><description>Neste domingo estarei com uma intoxicação alimentar graças ao ovo da páscoa oferecido pela dona Adelina do segundo andar. Antes disso, pela hora do almoço, comerei cabrito, como é habitual nestes dias e enfrascar-me-ei com duas ou três garrafas de tinto. Não comerei sobremesa, contentar-me-ei com o insípido café de saco e, minutos depois, proporcionarei ao meu cão um agradável passeio que o fará exercitar as patas e defecar um pouco.&lt;br /&gt;Não pensarei em nada, aliás como é meu costume, nem farei esforços por trocar simpáticas palavras com os vizinhos. Quando voltar a casa, entrarei no quarto da minha mãe avisando que o cão tivera defecado menos do que o habitual, ao que a minha mãe responderá que aquilo é apenas uma fase em que o bicho anda mais preso. Passarei então até à sala onde encontrarei o meu pai a jogar cartas com o meu tio fino. Serei convidado a jogar, mas tal não realizar-se-á, o crapô é um jogo disputado por dois jogadores, direi eu. O meu pai dirá, este meu filho devia ser cientista e depois, juntamente com o tio fino, soltará uma breve gargalhada. Nesta altura, estarei extremamente entediado e pensarei sobre as possibilidades que aquele dia poderá encerrar. Chegarei à conclusão de que não poderei esperar por nada de excitante. É nesta atura que,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me sento à janela. A minha mãe toca-me no ombro com um sorriso de domingo. Tem na mão um objecto com forma de ovo embrulhado num papel que não sei definir, diz-me, foi a dona Adelina que deixou para ti. Começo a despir aquilo que me parece ser um ovo e, no papel que não sei definir estão as minhas tardes na casa da dona Adelina, eu pequeno, a dona Adelina uma espécie de ATL. No caderno de duas linhas, a escavadora borracha porque, o menino não pode sair por fora. Bolacha Maria esmigalhada com sumo de laranja e banana, lá fora, leite achocolatado, pães com manteiga, bolos, santa ignorância, meses, anos, hoje temos um docinho para o lanche, lá fora guloseimas, hoje temos um doce para o lanche, Bolacha Maria esmigalhada com sumo de laranja e banana. Pouco antes da minha mãe chegar, era certo, os dedos da dona Adelina penteavam o meu cabelo. É só por isso que a perdoo. Só por isso. Como se a velha fosse um monstro, como se no momento em que penteava o meu cabelo com as suas mãos, a dona Adelina fosse uma anjo.&lt;br /&gt;Seguro um ovo de chocolate, foi a dona Adelina do segundo andar que mo deu.  Sento-me em frente à televisão e estaciono no Biography Channel. Fala-se sobre a depressão pós-parto da Brooke Shields. Começo a comer o ovo que a dona Adelina me deu e penso que a dona Adelina, caso tivesse tido filhos, não deveria ter sofrido desse mal, pobre dona Adelina, três gatos e um peixe. Quando acabo de comer o ovo de chocolate é altura de ir até à cozinha beber meia caneca de água. Pelas duas e trinta e cinco da manhã começo a sentir os primeiros sintomas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-1130751473396691846?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2008/03/j-neste-domingo-apanharei-uma-intoxicao.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-6268912236246276666</guid><pubDate>Wed, 12 Mar 2008 17:44:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-03-12T17:57:07.652Z</atom:updated><title>Pinheirinho</title><description>A Belinha pousou os cotovelos na mesa e fez aquilo a que os mais sensatos chamam de sorriso amarelo. A culpa tinha sido dela. Imprudente Belinha, foi ela que contou à mãe. Era uma tarde de chuva e Belinha e sua mãe punham o bacalhau de molho. De entre outros assuntos, podiam ter falado, precisamente, sobre o facto dos dias chuvosos serem dias propícios para pôr o bacalhau de  molho na marquise, menos luz, temperaturas mais baixas, menos risco de cheiros e água choca.  Mas não. Belinha preferiu chamar o Zé.&lt;br /&gt;O Zé consegue tocar com a língua na ponta do nariz.&lt;br /&gt;Ai é?&lt;br /&gt;A mãe de Belinha deitou a língua para fora. A língua da mãe da Belinha tinha pouca ou nenhuma elasticidade.&lt;br /&gt;Eu não chego. Tu chegas?&lt;br /&gt;Belinha deitou a língua para fora. A língua da Belinha tinha mais elasticidade do que a de sua mãe. Belinha não conseguia chegar com a língua à ponta do nariz por um ou dois milímetros.&lt;br /&gt;Estás a ver? Quase que chego.&lt;br /&gt;Depois de porem o bacalhau de molho, Belinha e sua mãe  tentaram várias vezes, em frente ao espelho, chegarem com a língua à ponta do nariz. Não tiveram sucesso.&lt;br /&gt;No dia em que o Zé foi lá jantar, a mãe de Belinha fez uma feijoada à brasileira e o pai dela cancelou o jogo de bilhar que tem às quintas para conhecer o namorado da filha. Quado bebiam café, isto aconteceu:&lt;br /&gt;Zé, a Belinha diz que tu consegues chegar com a língua à ponta do nariz.&lt;br /&gt;Apesar de daltónico em último grau, naquele momento, Zé soube que o vermelho predominava na sua cara, estendendo-se um pouco até ao pescoço. Sempre fora assim, corava até meio do pescoço. Vá-se lá saber.&lt;br /&gt;O Zé deitou a língua para fora e fê-la chegar à ponta do nariz. Todos bateram palmas durante um tempo que Zé classificou como um longo período de tempo. Mas não foi tudo.&lt;br /&gt;Mesmo a chegar a casa foi mandado parar pela polícia. Pinheirinho familiar e divertido vulgarmente pendurado no retrovisor que aromatiza o carro com cheiro a pinhal. Talvez este mentol, pinhas prensadas matem o bocadinho de uva que bebi ao jantar, pensou.&lt;br /&gt;Bufa o balão, bufa Zé.&lt;br /&gt;O senhor tem 0.5 gramas de álcool no sangue.&lt;br /&gt;Tinha dito que o Zé era esperto, ele percebeu a grande estupidez que tinha feito, depressa disse,&lt;br /&gt;Senhor guarda (ele tira os restos mortais do pinheiro da boca) é disto.&lt;br /&gt;É disto?&lt;br /&gt;Sim, isto tem álcool.&lt;br /&gt;Você está a brincar comigo.&lt;br /&gt;É disto senhor guarda. Eu não bebi nada.&lt;br /&gt;Não bebe. Costuma comer pinheiros de papel.&lt;br /&gt;Foi só hoje. Eu juro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-6268912236246276666?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2008/03/pinheirinho.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>0</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-6039220549380383698</guid><pubDate>Fri, 07 Mar 2008 15:53:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-03-07T15:58:33.683Z</atom:updated><title>Doce extracção</title><description>A coisa mais estúpida que ouvi, veio da televisão, sob um anúncio a um supermercado. Provavelmente, o burro sou mesmo eu, e isto já estava a ser feito há muito tempo. Às tantas, nas catacumbas dos armazéns, rapazes e raparigas equipados como deve ser procederam discretamente à mega operação a que, por motivos óbvios,  intitularam: “doce extracção”. Quem as quer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uvas sem grainha, no pingo doce, a 2,99€ o quilo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-6039220549380383698?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2008/03/doce-extraco.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-1173082367216637060</guid><pubDate>Tue, 04 Mar 2008 17:40:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-03-04T17:41:39.187Z</atom:updated><title>Olga</title><description>É interessante a forma como cada um descobre exercícios distintos para fazer com o seu corpo ou partes dele. Por exemplo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a dona Olga,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto da dona Olga.  A dona Olga costuma comer iogurtes de banana que traz de casa dentro de um saco plástico de propaganda farmacêutica, não vá a minha avó gastar 0.50€ diários na velha que tem uma fixação por sudokus dificuldade muito fácil. Todos os dias, úteis, repito, todos os dias úteis, a dona Olga senta-se na poltrona que era do meu avô e cruza as mãos. Com uma particularidade, a dona Olga quando cruza as mãos separa os polegares um do outro. Para quê? A dona Olga faz todas as tarde, há mais de quinze anos, uma brincadeira gira. Com as mãos cruzadas, começa com um rodopio obsessivo, quero dizer, os polegares começam a desenhar no ar uma espécie de círculos intermináveis. Eu sei que isto é difícil de explicar, temo não conseguir. Aqui vai, temos duas mãos. As mãos aproximam-se e os dedos cruzam-se, assim é que é. Os dedos das mãos cruzam-se, mas os polegares permanecem afastados um do outro. Experimentem, a sério. É divertido. Portanto, dedos das mãos cruzados, polegares ligeiramente afastados um do outro e agora é que começa a rambóia.  Vamos. Cada polegar começa a desenhar um pequeno circulo um à volta um do outro, mas atenção! Os polegares não se podem tocar. Isso, devagarinho, estão a conseguir? Concentração. Destreza. Que eu nunca vi a dona Olga perder.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-1173082367216637060?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2008/03/olga.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-3308694136360989014</guid><pubDate>Fri, 08 Feb 2008 16:06:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-02-27T19:31:52.863Z</atom:updated><title>Eu sou o 411</title><description>Nasci pateta. Assumo, sem vergonha. Foi com alguma sorte que a minha mãe não me matou com uma amona, era eu pequeno mal me segurava das pernas. Mais ou menos como agora. A diferença nos pêlos, só isso. E o que está por dentro, o que está por dentro talvez cheire um pouco a especiarias guardadas há anos em frascos mal vedados, mas sem importância porque não há aqui ninguém. Para já, pelo menos. Talvez vá dar uma volta, dizem que dão 21 graus para a tarde e já são quatro e dez, o melhor é mesmo ir ou, então, ficar para aqui a falar de uma coisa que me tem incomodado ultimamente, é, é melhor ficar aqui. Sabe-se lá quem é que posso encontrar na rua. Por vezes, é altamente perigoso sair de casa. Como daquela vez que encontrei a Alice, a jogadora ocasional de canasta. Estava na repartição das finanças, bem, estava na repartição de finanças improvisada, melhor assim, uma vez que a repatição de finanças propriamante dita estava para obras. Cheiro a gente cansada e um, como é que se chama aquela coisa vermelha que há no talho e na queijaria do continente, aquela coisa de onde se puxam as senhas com números? Sim, uma coisa dessas de onde gente cansada puxa a senha que às vezes teima em não sair ou então sai com outra atrás, enfim, senhas. Tudo a olhar para o &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;placard&lt;/span&gt; luminoso que exibe sempre números tão grandes e eis que o barulhinho parvo quando acontece o milagre da metamorfose e o 342 é 343. &lt;div&gt;Indo ao que importa, que é o mesmo que dizer,  &lt;div&gt;Alice, sua comilona, nunca jogaste uma peida, tu querias era que chegasse a hora do lanche para poderes comer como uma alarve, foi por isso que inchaste, o que é que julgas? Foram os sconesinhos, o bolo prata que está tão fofinho, sim, sim, e aquela tarde de queijo com doce de framboesa que era a Teresa que a fazia, pois é, a tua favorita Alice. Eu sei. Era pequeno, mas via, Alice. A propósito, tens feito análises? Esses diabetes? Deves estar bonita, deves.  Não olhes para mim, não, não olhes agora. Eu sou o  411 e ainda está no 397, há tempo a separar estas senhas. És capaz de parar. Por favor, eu retiro o que disse, numa voz eloquente, ó bela Alice, quão formosa estás. Não? Fico calado. Sua malandra, não me deste ouvidos, tu já me viste, sua burra. Ah, também vais fingir, olha que eu sou bom nisso, ups, deixei cair a minha senha. Pimba. Tu comigo não brincas, Alice, alice, chup'ma piçe. Tenho aqui uma coisa no dedo, não sei se é um pico. Como é? Brincamos, ou colamos cartazes? Olha, por falar em cartazes, ainda não li o que diz ali, deixa ver, &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Respeite a privacidade individual, por favor aguarde a chamada do seu número afastado do balcão. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ó Alice, então? Chega-te para trás, sua cusca. Estás mesmo aí em cima dessa gente. Tu és impossível Alice. Alice? Alice? Tu estás a vir até aqui, tu já chegaste,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Sabes que eu vejo mal, meu filho (espeta-me com a boca dela na minha bochecha) aquele ali parece-me o António da Dina. Mas a gente chega a uma idade e sabes como é. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;E eu: Não sei, não. Como é que é?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E ela: Meu filho e a tua avó?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E eu: Morreu. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;E ela: Que Deus nosso senhor a tenha. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;E eu: Pensei que sabia. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;E ela: Dizem que tenho uma doença na cabeça, mas não me lembro qual é o nome. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;E eu: Se calhar por isso. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ela não arrasta os pés, não senhor, tem uns sapatos daqueles ortopédicos que duram uma vida. Bem bons. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ela diz: Gostei muito de te ver meu filho. Dá cumprimentos lá em casa, sim? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-3308694136360989014?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2008/02/eu-sou-o-411.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>5</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-6324826335096318706</guid><pubDate>Thu, 10 Jan 2008 18:49:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-02-08T15:43:15.155Z</atom:updated><title>Evolução das espécies</title><description>Há um senhor senil, sim senil, suponho que senil. Há um senhor que tem uma loja que vende pijamas, peúgas e lenços de assoar.&lt;br /&gt;Esse senhor está senil, só pode. Esse senhor fez-me escrever&lt;br /&gt;Que, em tempos, tinha lá de tudo, algodão, poliésteres, nylons. Linho também, havia quem gostasse dos linhos como ele gostava e então, toalhas bonitas de linho para o Natal e não só, chegou-se a mandar vir umas colchas bonitas de uma casa muito conhecida em Lisboa. A mulher tinha a fama de entreter a freguesia com recitais culinários que nem sempre eram claras, perdão, claros&lt;br /&gt;não, primeiro o açúcar Fatinha, é, primeiro o açúcar com a manteiga, bate-se bem batidinho e só depois é que se põem os ovos. É, bate-se o açúcar, Fatinha.&lt;br /&gt;Ele, rapaz rijo, a loja herdada do pai, naquela altura um senhor senil, agora nada, ou mortinho da silva como quiserem, ele subia por aquela escada acima, fogo nas pernas e nas mãos losangos de uma camisolinha de lã para o neto da senhora Aida.&lt;br /&gt;Isso dantes, porque hoje o senhor senil está sentado atrás do balcão e não se mexe. Treme um bocadinho. Na montra, tombados, como ele, pedaços de papel deixam ler&lt;br /&gt;casa para alugar a menina universitária&lt;br /&gt;senhora com experiência passa a ferro.&lt;br /&gt;Num papel quadriculado, a esferográfica azul&lt;br /&gt;Camisola interior tamanho grande a seis euros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-6324826335096318706?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2008/01/evoluo-das-espcies.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-714158803983733008</guid><pubDate>Tue, 06 Nov 2007 17:23:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-11-06T17:27:01.892Z</atom:updated><title>É um bicho</title><description>A minha tia-avó é milionária. Em vez de Biarritz ou Mónaco,&lt;br /&gt;Termas de Caldelas, Amares, Portugal.&lt;br /&gt;Tudo bem, pelo menos para já. Aconteceu o seguinte,&lt;br /&gt;Meu filho, a tia gostava muito que viesses cá almoçar.&lt;br /&gt;Sabe tia, ando com uns problemas de pele, umas comichões, uma coisa horrível.&lt;br /&gt;Que chatice, meu filho, mas dá-te muita comichão, é filho?&lt;br /&gt;Sábado, 13h30, sala de refeições do Hotel das Termas de Caldelas&lt;br /&gt;Menu baixas calorias, um peixinho grelhado, uma sopa sem batata, coisa simples. Para mim, bife pimenta e meia garrafa de esteva. Ainda o enjoo da viagem e o cheiro da laca da tia. Ainda as unhas da tia a comicharem a minha mão e uma pêra rocha à sobremesa porque a frutinha faz-te bem meu filho. Há filmes de terror mais simpáticos do que este. Sob pretexto de um  final feliz, uma massagem anti-stressante.&lt;br /&gt;Obrigado tia, mas não precisava.&lt;br /&gt;Está calado filho.&lt;br /&gt;A tia também vai fazer?&lt;br /&gt;Não, a tia agora vai ter de ir para o quarto beber muita muita água.&lt;br /&gt;Porquê?&lt;br /&gt;És alguma criança? Livre-nos Deus, sempre com perguntas.&lt;br /&gt;Está bem.&lt;br /&gt;Uma espécie de bicho do sexo feminino com penugem acentuada dá entrada da minha pessoa no Spa, através de um rápido e animalesco toque no ecrã do computador. Sigo-a, com medo, até aquela que será a sala do terror. Alguma consequência do consumo excessivo de água ou outro tipo de perturbação própria de quem é bicho e não gosta. Tanta inocência no mesmo dia. Meu Deus, que burro, A tia marcou-te uma massagem, filho. Ainda a esperança de que, sim senhor, uma massagem é uma coisa assim agradável e boa de se receber, assim umas mãos de seda, ou de algodão, contentava-me com uma mãos de algodão, confesso. Ajustes no chuveiro (a tia tinha escolhido uma massagem com jactos de água, que amor) e ainda a possibilidade, ainda, É agora que se vai abrir a porta por onde vai entrar uma técnica que fez provavelmente formação no estrangeiro, quem sabe, uma técnica habilitada, portanto. Não este coiro, esta coisa de boca aberta, pele azul, roupão azul, chinelas azuis, fato-de-banho azul, tudo azul e, a começar algum vapor na sala da tortura. O chuveiro ok e ninguém. O chuveiro ok. Tirar o roupão por favor. Argh, os bichos também falam, os bichos podem falar, este bicho fala. Já sabia que falavam, mas não este, não este bicho. O chuveiro ok e ainda ninguém. Uns chinelos ridículos que pude trazer como recordação. Despir o roupão, pode-se deitar. Eu não quero. Posso desistir? Como é que se faz? Tia, tiiiiiia. És uma grande vaca. De que matagal vieste tu?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-714158803983733008?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2007/11/um-bicho.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>4</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-3915995446138009363</guid><pubDate>Mon, 29 Oct 2007 18:24:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-10-29T18:26:24.892Z</atom:updated><title>Cebolíce</title><description>A vida é como uma cebola. Feita de camadas e às vezes a gente chora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-3915995446138009363?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2007/10/cebolce.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-5289967540988033812</guid><pubDate>Fri, 20 Apr 2007 16:21:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-07-23T16:05:40.340+01:00</atom:updated><title>Espera aí</title><description>A sala de espera de um hospital é uma coisa gira. Estou a brincar. A sala de espera de um hospital é uma coisa mega espectacular de gira. De qualquer das formas não estou arrependido. Pude, com alguma tranquilidade, comer dois queques de cenoura e beber três meias de leite. Alimentar-me como um humano, já que ultimamente tenho feito muito refeições à base de sangue fresco, daquele que não vai à panela. O avô também era assim, tinha eu sete meses quando me levou à tasca do Emílio. Dois shotes mosanguito e um pratinho de caracóis, nunca mais me esqueço. Bom, mas concentremo-nos  no que interessa.&lt;br /&gt;Éramos quatro, quer dizer, comigo cinco. Se contarmos com o Jorge e a Sónia que estavam na televisão, éramos sete. Não vou contar com o auxiliar que arrastava os pés. Umas socas verdes de plástico cheias de furinhos para o chulé, depois quem se lixa. Quer dizer, o tipo chamava por um tal de Albano Soares Pereira, mas nada. Provavelmente um tipo muito mais esperto do que nós. A pescar ou no horto da Boavista, ali é que não. Fedor hospitalar como deve ser. Alguns cartazes interessantes que nos avisavam que o mais certo é sermos portadores de diabetes tipo2, tuberculose, gripe das aves e obesidade mórbida. Cancro da mamã, do colo do útero e acho que mais nada. É, acho que não, pelo menos naquela sala. Foi então que dei um espirro e a sala inteira olhou para mim. Logo depois, o segundo espirro. A Sãozinha levantou-se e estendeu-me um lenço de papel. Não tinha ranho nem nada. Tinham sido uns espirros inocentes, daqueles pouco aventureiros que não saem da casa da partida. De qualquer das formas, com medo das represálias, aceitei a oferta. A Sãozinha diz-me baixinho&lt;br /&gt;“Ouça uma coisa, o senhor não tem culpa, mas isso passa os micóbrio à gente.”&lt;br /&gt;A Sãozinha estava sentada numa cadeira que estava paralela à minha, falamos numa distância de três, quatro passos largos.&lt;br /&gt;“Eles voaram até aí, foi?”&lt;br /&gt;“Vem para o Doutora Glória?”&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;“Ah.”&lt;br /&gt;Olhei para o meu lado esquerdo e, sobre a mesa, um folheto interessante, Associação de obesos e ex-obesos de Portugal. Hum. Isto está a melhorar.&lt;br /&gt;“Mas é alguma coisa no coração, é?”&lt;br /&gt;Na televisão o Jorge dá 1500€ a uma Sãozinha que teve a habilidade de ter uma porrada de netos.&lt;br /&gt;“Sofro de uma coisa estranha.”&lt;br /&gt;Uma mosca rodopiou no espaço que existia entre o meu queixo e o nariz da Sãozinha. Fiquei à espera que a Sãozinha soltasse a língua,  A que horas vai morrer? Sofrer muito ou só um bocadinho? Vou ser cremada e o senhor? Desta vez até o tipo das socas aos furinhos punha os olhos em cima do meu colete de malha verde seco e descia um bocadinho até às minhas mãos quietas que seguravam, desinteressadas, o terço do queque de cenoura que estava por comer.&lt;br /&gt;“Tenho dois corações.”&lt;br /&gt;“Credo!”&lt;br /&gt;Agora o chão, o tecto, o que estava para lá do cimento e das portas, tudo sem se ouvir. Ah! Pela primeira vez o barulhinho do meu estômago a espreguiçar-se. Foram precisos poucos segundos para que a Sãozinha se tivesse afastado, voltando ao seu lugar. É então que ajeita o saco plástico que tem a seus pés. Alguma blusinha fresca, muito jeitosa, comprada nos chineses. Para a próxima, aquele servicinho de chávenas de café para oferecer ao Quim que faz anos já para o primeiro de Maio. O tipo das socas aos furinhos a esboçar o que parecia ser um sorrisinho cúmplice muito irritante, algo muito próximo de uma grande carícia ao seu ego, uma exaltação à sua inquestionável inteligência, claramente superiror à daqueles parvos todos. A expressão da minha face inalterável. Só depois da trinca no queque de cenoura é que talvez, digo apenas talvez, possa ter ficado a ligeira impressão de que me estava a rir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-5289967540988033812?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2007/04/espera.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>7</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-8734685963294242441</guid><pubDate>Wed, 28 Feb 2007 17:15:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-02-18T18:19:19.487Z</atom:updated><title>No lugar do coração, uma fartura</title><description>Sou miserável. Por natureza, um miserável incorrigível, mas não invejo os cães. Desconhecemos as suas dívidas ao banco e, andar de coleira não deve ser, de todo, agradável. Descobrir aos trinta a verdadeira vocação é, no mínimo, deprimente. Quando essa vocação passa por ser vendedor de farturas, pior ainda. É simples,&lt;br /&gt;Não vai valer de nada ter uma pirâmide, bem razoável, feita de garrafas de óleo fula. Nem pacotes corpulentos de farinha branca de neve, de costas para o espelho. Não tenho perímetro necessário na zona abdominal, nem bocadinhos de terra na unhas, nem o sebo, nem o tufo de pêlo que sai, maroto, fora da camisa que está aberta até ao botão da calça de ganga coçada. Nem sequer gaja, porra. Uma Maria, de braço descoberto, a manobrar com agilidade uma pinça que não deixa a fartura fazer dói-dói. O nome Antunes, rei da fartura, bem no cimo, com luzinhas que piscam, quiçá algumas estrelas e uma Nicole de biquíni. Em períodos fracos da feira, caminhar despreocupado até à barraquinha do José e comprar uma olaria ou um chapéu de palha, caso alguma chuva  fraca, acontece sempre. Se tivesse netos, um daqueles cavalinhos com cabelo de corda e sorriso congelado. Ao final da tarde, sardinha com broa de Avintes e um copo de verde, ah, o vinho verde com aquele gás pequenino que faz uma comichão subtil no fim da garganta. Para acabar, duas ou três trincas no churro que ficou do meio-dia. Dar uma volta na roda gigante e conhecer uma Carolina que fecha os olhos, mesmo quando a cadeirinha ainda está perto do chão, terra batida cheia de bisgas e papel rasgado do sorteio da grande tômbola. Perguntar se a Carolina tem medo de fantasmas. Ter paciência e, nessa altura, rezar um bocadinho para que diga que sim. Senão, atirar bolas de ténis a umas latas que estão quietas. Esperar ganhar um edredão muito fofo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-8734685963294242441?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2007/02/uma-fartura-piscar-no-lugar-do-corao.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>6</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-770038359817626674</guid><pubDate>Fri, 23 Feb 2007 14:52:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-02-23T14:57:24.433Z</atom:updated><title>Porta-te bem, senão levas uma surra</title><description>Há um ciclone, que anda para aí todo desvairado, com o nome de Flávio. Flávio, pá, a gente é a última vez que te avisa: vê lá se fazes um bocado mais de remo no ginásio, ou isso, pá. A tua prima Katarina, que assaltava velhinhos em paragens de autocarros, é hoje uma boa catequista. Por isso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-770038359817626674?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2007/02/porta-te-bem-seno-levas-uma-surra.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-163362719904078846</guid><pubDate>Mon, 29 Jan 2007 17:10:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-01-29T17:58:40.052Z</atom:updated><title>Dali do fundo, um barbeiro</title><description>A minha relação com a Tina está, literalmente, por um fio. A Tina está obcecada com a sua saúde oral (entenda-se, espaços entre os dentes) e utiliza o dito fio dental sempre que dá uma trinca num húngaro ou numa outra bolacha de pequeno porte. Traz aquilo na carteira junto do pacote de conguitos que costuma comprar depois do almoço no quiosque da Ermelinda. Acho bem que as pessoas lavem os dentes, e até os pés, eventualmente.  Às vezes penso na Tina a passear pelo jardim de São Lázaro, como se fosse um cachorrinho, língua de fora e tudo. Coleira invisível, feita de fio dental. Desculpem. Esta imagem é fraquinha. Vou tentar outra vez. A Tina, a obrar bem o fio, de trás para a frente, de trás para a frente. A obrar tão bem que consegue fazer aquilo a que chamamos de buraco entre os dois dentes da frente, um buraco bem razoável, assim estilo moeda de um cêntimo. É claro que essa condição faz com que desenvolva uma extraordinária capacidade para a criação de uma vasta panóplia de sons, assobios e deitadelas de cuspo cá para fora, eventualmente até um número numa companhia de circo romeno, caso tenha sorte ou um padrinho com a mania que é espertalhão.&lt;br /&gt;Eu estou no carro, sentado no banco ao lado da Tina. A Tina gosta de ouvir o oceano pacífico, o programa de rádio, claro. Mas não foi por isso que me exaltei um pouco. Foi por causa do fio. Porque nessa noite o fio tinha acabado e a Tina obrigou-me a acompanhá-la até uma farmácia. Até aqui tudo bem, se não encontrasse o Arnaldo a comprar preservativos. O Arnaldo é o irmão mais novo de um maluco que eu conheci no parque de campismo de Olhão. Tem catorze anos e pertence a um grupo de pessoas que se preocupam, de forma considerável, com a vida do urso polar, em geral. Trazia um gorro bem enfiado, era difícil ver-lhe os olhos, ainda assim, arrisquei uma palmada nas costas:&lt;br /&gt;“Arnaldo.”&lt;br /&gt;Ele franze e coça a zona lateral da narina esquerda.&lt;br /&gt;“António! Também queres disto?”&lt;br /&gt;“Não. A Tina veio comprar fio dental.”&lt;br /&gt;“A Tina?”&lt;br /&gt;“Uma amiga.”&lt;br /&gt;Enquanto o Arnaldo olha para dentro da farmácia, eu tento, disfarçadamente, descobrir a moribunda que quer brincar aos polícias e ladrões com o Arnaldo, “o defensor da vida do urso polar”, e encontro, dentro de um smart amarelado, duas mãos que seguram qualquer coisa com um folheto promocional relativo à semana de enchidos do continente. De forma trágica, esse mesmo folheto, escondia,  por assim dizer, o focinho daquela que só podia ser a sua ursa.&lt;br /&gt;“Uma amiga, pois, pois."&lt;br /&gt;“Vais bem munido?”&lt;br /&gt;O Arnaldo dá uma gargalha nervosa.&lt;br /&gt;"Tinha poucos trocos."&lt;br /&gt;"Ai, o malandro."&lt;br /&gt;Depois de um silêncio curto, o Arnaldo atreve-se o suficiente, sendo assim capaz de proporcionar na parte interior das minhas veias uma longa, silênciosa e interna gargalhada:&lt;br /&gt;“Vem dali um barbeiro do caralh..”&lt;br /&gt;“Barbeiro?”&lt;br /&gt;“Nunca ouviste?”&lt;br /&gt;“Vem dali um barbeiro, quer dizer, vem dali um frio.”&lt;br /&gt;“Ah.”&lt;br /&gt;“Percebeste?”&lt;br /&gt;“Frio de cortar à faca?”&lt;br /&gt;“Sim, daí o barbeiro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero conhecer esse génio. Ser amigo desse génio, eventualmente envolver-me em torneios de malha, com esse génio notável.  O génio que disse: "Vem dali um barbeiro do caralh..".  God damn it!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, como isso do barbeiro era mesmo verdade, apesar de não o ter conseguido ver na realidade, talvez mais ao fundo da rua, não sei, entrei no carro e rodei a chave. O próximo gesto foi o de desligar o rádio.  Ouvia-se um rolo de carne meio choramingas, dizia numa língua diferente: “oh, eu farei qualquer por amor, oh eu farei qualquer coisa por amor, oh eu farei qualquer coisa por amor, mas não farei isso.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-163362719904078846?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2007/01/dali-do-fundo-um-barbeiro.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-2756732434325335075</guid><pubDate>Wed, 24 Jan 2007 16:31:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-01-29T17:58:14.207Z</atom:updated><title>Olho de chimpanzé</title><description>Conta-se que a minha tia-avó, no dia do casamento, para além de estar a sofrer dos pés, quiçá uma unha encravada ou um joanete na fase do armário (não há provas), estava, e em relação a isso existem registos fotográficos que o comprovam, estava, definitivamente sendo alvo ou, melhor dizendo, sendo portadora, assim é que é, sendo portadora de um considerável e proeminente treçolho. Até bem recentemente acreditei que o treçolho não figurasse naquela lista de coisas terríveis que nos podem ser herdadas por uma tia-avó. Estava redondamente enganado. Hoje, carrego um treçolho bem adolescente no olho direito. Não é, de todo, desagradável, apesar de me retirar quase total visibilidade e, de vez em quando, largar um pus idêntico ao mel, só que menos doce (já provei). Parece assim, é como se tivesse um chimpanzé nas costas, só que no olho. Querendo ser optimista.. não, não consigo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-2756732434325335075?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2007/01/olho-de-chimpanz.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>3</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-429348225090724</guid><pubDate>Fri, 12 Jan 2007 17:21:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-01-12T17:26:36.405Z</atom:updated><title>Supermercado das alcatifas</title><description>Um supermercado das alcatifas é um sítio espectacular. Ontem passei parte da minha tarde com a minha irmã num supermercado das alcatifas. Posso garantir que não me divertia tanto desde que vi a minha tia tropeçar num pacote de arroz carolino no hipermercado jumbo. Convém dizer que eu odeio tapetes. Aliás, abomino tapetes. Sou invulgarmente alérgico a tapetes. Acho que os tapetes são uma coisa feia, em alguns casos, até mesmo, horripilante. Então aqueles tapetes que têm a grossura de uma estante de madeira com para aí vinte cinco centímetros, daquelas que para além de uma boa porrada de livros podem também carregar com relativa facilidade algumas crianças obesas, esses tapetes assustam-me muito. Juro de pés juntos que tenho medo desses tapetes. No supermercado das alcatifas vi um tapete desses que olhou para mim e viu que eu não gostava dele, nem um bocadinho. Estava em saldo, o miserável. É bem feito, não fosses tão feio. O palerma tinha a cor de um bege assim para o caidito e uma coisa parecida com uns desenhos chalados, como se estivessem em coma ou fossem só apenas indivíduos muito tímidos. Mas não eram indivíduos no verdadeiro sentido do termo, eram mais uns riscos, acho eu. O mais sensato era afastar-me de ali, foi quando fui dar com a minha irmã sentada num desses pufs de cor eléctrica. Sentei-me ao lado, num desses pufs igualmente de cor eléctrica e pensei um pouco no tapete em si mesmo e como o tapete era, em si mesmo, algo de profundamente detestável. Eram tantos à minha frente que comecei a ficar tonto, um bocadinho enjoado, a imaginar que estava debaixo daqueles tapetes todos e alguns eram mesmo tapetões grandes e com pelo comprido. Alguns eram mesmo bichos brancos grandes, tipo ursos polares ou isso. É provável que tenha esbranquiçado um pouquinho porque a minha irmã foi prontamente buscar-me um copo de água. Um bocado de sorte, lá existia um daqueles garrafões de água gigantes ao contrário, como há nas salas de espera dos dentistas. A minha irmã sabe, desde sempre, que sou um tipo extremamente estranho, ainda assim não me faz muitas perguntas, o que faz dela uma pessoa com uma inteligência emocional muito acima da média. Talvez por isso, voltámos aos pufs, como se nada tivesse passado. A minha irmã pergunta o preço do puf porque até à data era o mais confortável que tinha conhecido, a tipa da loja diz que o puf custa cem euros e a minha irmã pergunta se não há desconto, mas a tipa diz que não, que aquele é um produto que se bende benhe tuôdo o áno. É pena.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-429348225090724?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2007/01/supermercado-das-alcatifas.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>4</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-116828057533958815</guid><pubDate>Mon, 08 Jan 2007 18:06:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-01-08T22:38:59.450Z</atom:updated><title>O confessionário</title><description>A parte mais interessante do meu Natal aconteceu por volta das duas da manhã do dia 24 quando o tio fino reclama a minha companhia para ir comprar cigarros. A opinião geral lá em casa era de que não havia nada aberto aquela hora. Foi aí que eu tive de explicar que existem bombas de gasolina onde tipos, provavelmente tão energéticos e bem cheirosos como eu, vendem cigarros a atrasados mentais como o meu tio fino. O tio fino é viciado em cigarros desde os oito anos. A mãe foi dar com ele a meio de uma chuveirada com um cigarro aceso (português suave, o tio confessou mais tarde) pousado numa saboneteira pintada com o pé por um artista bastante dotado e sem mão. Adiante, metemo-nos no carro do tio fino, um peugeout 206 cor verde para o cáca e o tipo liga o rádio e está a dar qualquer coisa parecida com uma ópera. Eu pergunto ao tio fino se ele fazia questão de ouvir aquela tipa gorda, ele responde: sabes lá tu se ela é gorda, eu: costumam ser, ele: ai é? eu: não é? ele: sabes muito, sabes. Calei-me logo, até porque entretanto pareceu-me ver o pai natal ali perto da churrasqueira carvão II. Mas não devia ser porque quando olhei de novo, aquilo era só uma árvore. O tio fino começa então a fazer-me perguntas bizarras acerca da minha vida onde se incluíam patetices evidentes como: como é trabalhar num restaurante na periferia da cidade e se o Víctor Baía enchia sempre o depósito quando punha gasolina. Tentei não levar as questões muito a peito e respondi de forma educada. O tio fino ficou desapontado, provavelmente porque estava à espera que eu lhe dissesse que eu era um mártir tipo santinha alexandrina de balasar. Continuando, ele compra os cigarros e traz na mão um pack de cerveja. Pousa o carro ali perto da alfândega e sai do carro: desculpa lá, estava a precisar de libertar uns gases. Deprimente, penso. Diz: já viste o rio hoje? A minha única hipótese de sobrevivência era aquela garrafa de cerveja (cristal). Confiro com a mão, está fresca. Saco do canivete suíço e bato a porta do carro: o que é que tem? ele: Porra! Já estás a beber seu animal? É parvo, digo: era para guardar? O tio fino dá uma gargalhada: tu és um gajo esperto, meu burro. Lembrei-me da gata bílis, não sei porque carga de água e, pouco depois, relembrei os azulejos miseráveis da minha casa de banho. O tio fino estava entretido a cantarolar qualquer coisa como um fado de Coimbra e eu achei por bem deixá-lo estar. Foi aí que senti qualquer coisa muito perto da melancolia e, para contrariar, disse ao tio fino que já tinha pensado em ir para padre. O tio fino não acreditou. Eu disse que sempre gostei de saber basicamente tudo sobre a vida das pessoas, católicas e não só. O confessionário era também um sítio fixe para me esconder do meu primo quando brincássemos às escondidas. Logo a seguir, o tio começou a contar como tinha sido a primeira vez que tinha andado na roda gigante. As dúvidas relativas à minha potencial vocação dissiparam-se um pouco mais quando olhei para o relógio e vi que eram três e meia da manhã. Tinha dito apenas duas palavras. Foi bom. Gosto de ser o poço onde os outros deixam, muito ao de levezinho, cair os seus puzetes mentais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-116828057533958815?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2007/01/o-confessionrio.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-19260002.post-116603012797687850</guid><pubDate>Wed, 13 Dec 2006 17:07:00 +0000</pubDate><atom:updated>2006-12-13T17:15:27.980Z</atom:updated><title>Amor de Tia</title><description>Tia Georgina, tenho pena que já não estejas cá. Tu foste a responsável pelos Natais mais felizes da minha vida. Tia Georgina, Tia Georgina. O nome de madrinha ficava-te tão bem. Em pequeno, lembro-me que não conseguia dizê-lo direito. Dizia: Georiegeina, e deitava sempre um cuspo nojento por causa dos gês e do erre do teu bonito nome. Tu sempre foste compreensível e deixavas-me tratar-te por Gina. Nunca soubeste, mas nesses dias de véspera de Natal, quando ias lá a casa levar-me a prenda, a minha mãe enchia-me de pancada porque eu não era capaz de dizer o teu nome como deve ser. Tinha sido tão mais fácil ter-te tratado por madrinha. Aliás, tinha sido o mais lógico, já que eras, efectivamente, a minha madrinha. Oh! Madrinha! Ao longo da minha vida só escrevi uma carta, e não foi a um morto mas, por favor, tenta compreender, ainda dói um bocadinho. Oh! Tia Georgina, lembras-te? Feijãozinho, era assim que tu me chamavas. Dizias daquela forma engraçada: miu fêjunzinhô, devia ser por estares em França, há muitos anos, com o Tio Adélio. Vou confessar-te uma coisa Tia Georgina, eu acho que a minha mãe sempre teve inveja de ti. Quando tu davas aqueles pus à frente de toda a gente, sem nunca te atrapalhares, a minha mãe tinha inveja porque mesmo nessas alturas tu sabias manter a classe, Tia Georgina. Nunca mandavas as culpas para os outros e isso era categoria. Uma vez o Tio Adélio quis encobrir-te e dizer que tinha sido ele a dar o pu porque estava a jantar em vossa casa um tipo importante que era um padeiro de Valongo, mas tu não deixaste. Começaram a dizer muitos palavrões, alguns que eu nunca tinha ouvido. Eu estava em tua casa porque a minha mãe, na sua idiotice, tinha rachado a cabeça a limpar o polibã, lembraste? Mas, adiante, o Tio Adélio continuava a dizer que tinha sido ele e tu não desistias e dizias: “Cala-te Adélio, que tu nem um ovo sabes estrelar, quanto mais dar um peido.” Eras muito mais inteligente do que ele e foi por isso que ele depois te bateu em frente ao padeiro e eu encontrei-te mais tarde na cozinha à procura do pacote de gelatina. Cá entre nós, Tia Georgina, agora podes confessar que o que tu procuravas mesmo era um venenosinho assim, para ratos, ou isso. Enfim, coisas da vida, afinal acabaste por ir tu na frente, Tia Georgina. Tinhas uns chinelos cor-de-rosa com pompons muito fofinhos que deste à filha da porteira quando os teus joanetes já não te permitiam usá-los. E dançavas rock n´roll, Tia Georgina. Porra, tu eras um animal possante, um jacaré provavelmente. Uma coisa que não percebia era como é que vocês, tu e o Tio Adélio, faziam tanta pasta a fazer cacetes. Que burro que eu era. Vocês eram praticamente donos de metade das padarias em Toulouse! Meu Deus, que sonho. Trazias-me sempre as melhores prendas. Como é que poderei esquecer o dia em que me trouxeste a consola Nintendo com aquele imbecil do Super Mário? Tu trazias uma caixa dentro de outra caixa, dentro de outra e com muitos jornais, para que o tempo de descobrir a verdadeira prenda fosse demorado. Isso era tão bonito, Tia Georgina, essa tua atitude. A minha ansiedade atingia valores muito altos, mas valia a pena. Antes de te ires embora, costumavas-me dar um beijo na bochecha, e eu não dormia a noite toda com a marca do teu batom que tinha um cheiro terrível a mofo. Mas não podia limpar, claro não. Se eu limpasse a cara sentia que te estava a trair, de qualquer maneira. Acho que isto mostra um bocado o bom rapaz que eu era na altura. É triste pensar no meu Natal sem ti. Para o caso de conseguires ler isto, ficas a saber que a minha mãe continua a dar-me pares de meias ao xadrez todos os anos e o meu pai diz-me que põe dinheiro numa conta (é mentira) de certificados de aforro no correio. Mereces mais do que isto, mereces mais do que um simples post, num mísero blog na internet. Eu acho que tu não mereces ter morrido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota: A Tia Georgina morreu afogada numa praia perto da Póvoa de Varzim. &lt;br /&gt;O meu Tio Adélio ainda é vivo, casou-se segunda vez com uma gaja que não aparece muito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19260002-116603012797687850?l=oantunes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://oantunes.blogspot.com/2006/12/amor-de-tia_13.html</link><author>noreply@blogger.com (António A. Antunes)</author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>4</thr:total></item></channel></rss>