Espera aí

A sala de espera de um hospital é uma coisa gira. Estou a brincar. A sala de espera de um hospital é uma coisa mega espectacular de gira. De qualquer das formas não estou arrependido. Pude, com alguma tranquilidade, comer dois queques de cenoura e beber três meias de leite. Alimentar-me como um humano, já que ultimamente tenho feito muito refeições à base de sangue fresco, daquele que não vai à panela. O avô também era assim, tinha eu sete meses quando me levou à tasca do Emílio. Dois shotes mosanguito e um pratinho de caracóis, nunca mais me esqueço. Bom, mas concentremo-nos no que interessa.
Éramos quatro, quer dizer, comigo cinco. Se contarmos com o Jorge e a Sónia que estavam na televisão, éramos sete. Não vou contar com o auxiliar que arrastava os pés. Umas socas verdes de plástico cheias de furinhos para o chulé, depois quem se lixa. Quer dizer, o tipo chamava por um tal de Albano Soares Pereira, mas nada. Provavelmente um tipo muito mais esperto do que nós. A pescar ou no horto da Boavista, ali é que não. Fedor hospitalar como deve ser. Alguns cartazes interessantes que nos avisavam que o mais certo é sermos portadores de diabetes tipo2, tuberculose, gripe das aves e obesidade mórbida. Cancro da mamã, do colo do útero e acho que mais nada. É, acho que não, pelo menos naquela sala. Foi então que dei um espirro e a sala inteira olhou para mim. Logo depois, o segundo espirro. A Sãozinha levantou-se e estendeu-me um lenço de papel. Não tinha ranho nem nada. Tinham sido uns espirros inocentes, daqueles pouco aventureiros que não saem da casa da partida. De qualquer das formas, com medo das represálias, aceitei a oferta. A Sãozinha diz-me baixinho
“Ouça uma coisa, o senhor não tem culpa, mas isso passa os micóbrio à gente.”
A Sãozinha estava sentada numa cadeira que estava paralela à minha, falamos numa distância de três, quatro passos largos.
“Eles voaram até aí, foi?”
“Vem para o Doutora Glória?”
“Não.”
“Ah.”
Olhei para o meu lado esquerdo e, sobre a mesa, um folheto interessante, Associação de obesos e ex-obesos de Portugal. Hum. Isto está a melhorar.
“Mas é alguma coisa no coração, é?”
Na televisão o Jorge dá 1500€ a uma Sãozinha que teve a habilidade de ter uma porrada de netos.
“Sofro de uma coisa estranha.”
Uma mosca rodopiou no espaço que existia entre o meu queixo e o nariz da Sãozinha. Fiquei à espera que a Sãozinha soltasse a língua, A que horas vai morrer? Sofrer muito ou só um bocadinho? Vou ser cremada e o senhor? Desta vez até o tipo das socas aos furinhos punha os olhos em cima do meu colete de malha verde seco e descia um bocadinho até às minhas mãos quietas que seguravam, desinteressadas, o terço do queque de cenoura que estava por comer.
“Tenho dois corações.”
“Credo!”
Agora o chão, o tecto, o que estava para lá do cimento e das portas, tudo sem se ouvir. Ah! Pela primeira vez o barulhinho do meu estômago a espreguiçar-se. Foram precisos poucos segundos para que a Sãozinha se tivesse afastado, voltando ao seu lugar. É então que ajeita o saco plástico que tem a seus pés. Alguma blusinha fresca, muito jeitosa, comprada nos chineses. Para a próxima, aquele servicinho de chávenas de café para oferecer ao Quim que faz anos já para o primeiro de Maio. O tipo das socas aos furinhos a esboçar o que parecia ser um sorrisinho cúmplice muito irritante, algo muito próximo de uma grande carícia ao seu ego, uma exaltação à sua inquestionável inteligência, claramente superiror à daqueles parvos todos. A expressão da minha face inalterável. Só depois da trinca no queque de cenoura é que talvez, digo apenas talvez, possa ter ficado a ligeira impressão de que me estava a rir.

No lugar do coração, uma fartura

Sou miserável. Por natureza, um miserável incorrigível, mas não invejo os cães. Desconhecemos as suas dívidas ao banco e, andar de coleira não deve ser, de todo, agradável. Descobrir aos trinta a verdadeira vocação é, no mínimo, deprimente. Quando essa vocação passa por ser vendedor de farturas, pior ainda. É simples,
Não vai valer de nada ter uma pirâmide, bem razoável, feita de garrafas de óleo fula. Nem pacotes corpulentos de farinha branca de neve, de costas para o espelho. Não tenho perímetro necessário na zona abdominal, nem bocadinhos de terra na unhas, nem o sebo, nem o tufo de pêlo que sai, maroto, fora da camisa que está aberta até ao botão da calça de ganga coçada. Nem sequer gaja, porra. Uma Maria, de braço descoberto, a manobrar com agilidade uma pinça que não deixa a fartura fazer dói-dói. O nome Antunes, rei da fartura, bem no cimo, com luzinhas que piscam, quiçá algumas estrelas e uma Nicole de biquíni. Em períodos fracos da feira, caminhar despreocupado até à barraquinha do José e comprar uma olaria ou um chapéu de palha, caso alguma chuva  fraca, acontece sempre. Se tivesse netos, um daqueles cavalinhos com cabelo de corda e sorriso congelado. Ao final da tarde, sardinha com broa de Avintes e um copo de verde, ah, o vinho verde com aquele gás pequenino que faz uma comichão subtil no fim da garganta. Para acabar, duas ou três trincas no churro que ficou do meio-dia. Dar uma volta na roda gigante e conhecer uma Carolina que fecha os olhos, mesmo quando a cadeirinha ainda está perto do chão, terra batida cheia de bisgas e papel rasgado do sorteio da grande tômbola. Perguntar se a Carolina tem medo de fantasmas. Ter paciência e, nessa altura, rezar um bocadinho para que diga que sim. Senão, atirar bolas de ténis a umas latas que estão quietas. Esperar ganhar um edredão muito fofo.

Porta-te bem, senão levas uma surra

Há um ciclone, que anda para aí todo desvairado, com o nome de Flávio. Flávio, pá, a gente é a última vez que te avisa: vê lá se fazes um bocado mais de remo no ginásio, ou isso, pá. A tua prima Katarina, que assaltava velhinhos em paragens de autocarros, é hoje uma boa catequista. Por isso.

Dali do fundo, um barbeiro

A minha relação com a Tina está, literalmente, por um fio. A Tina está obcecada com a sua saúde oral (entenda-se, espaços entre os dentes) e utiliza o dito fio dental sempre que dá uma trinca num húngaro ou numa outra bolacha de pequeno porte. Traz aquilo na carteira junto do pacote de conguitos que costuma comprar depois do almoço no quiosque da Ermelinda. Acho bem que as pessoas lavem os dentes, e até os pés, eventualmente. Às vezes penso na Tina a passear pelo jardim de São Lázaro, como se fosse um cachorrinho, língua de fora e tudo. Coleira invisível, feita de fio dental. Desculpem. Esta imagem é fraquinha. Vou tentar outra vez. A Tina, a obrar bem o fio, de trás para a frente, de trás para a frente. A obrar tão bem que consegue fazer aquilo a que chamamos de buraco entre os dois dentes da frente, um buraco bem razoável, assim estilo moeda de um cêntimo. É claro que essa condição faz com que desenvolva uma extraordinária capacidade para a criação de uma vasta panóplia de sons, assobios e deitadelas de cuspo cá para fora, eventualmente até um número numa companhia de circo romeno, caso tenha sorte ou um padrinho com a mania que é espertalhão.
Eu estou no carro, sentado no banco ao lado da Tina. A Tina gosta de ouvir o oceano pacífico, o programa de rádio, claro. Mas não foi por isso que me exaltei um pouco. Foi por causa do fio. Porque nessa noite o fio tinha acabado e a Tina obrigou-me a acompanhá-la até uma farmácia. Até aqui tudo bem, se não encontrasse o Arnaldo a comprar preservativos. O Arnaldo é o irmão mais novo de um maluco que eu conheci no parque de campismo de Olhão. Tem catorze anos e pertence a um grupo de pessoas que se preocupam, de forma considerável, com a vida do urso polar, em geral. Trazia um gorro bem enfiado, era difícil ver-lhe os olhos, ainda assim, arrisquei uma palmada nas costas:
“Arnaldo.”
Ele franze e coça a zona lateral da narina esquerda.
“António! Também queres disto?”
“Não. A Tina veio comprar fio dental.”
“A Tina?”
“Uma amiga.”
Enquanto o Arnaldo olha para dentro da farmácia, eu tento, disfarçadamente, descobrir a moribunda que quer brincar aos polícias e ladrões com o Arnaldo, “o defensor da vida do urso polar”, e encontro, dentro de um smart amarelado, duas mãos que seguram qualquer coisa com um folheto promocional relativo à semana de enchidos do continente. De forma trágica, esse mesmo folheto, escondia, por assim dizer, o focinho daquela que só podia ser a sua ursa.
“Uma amiga, pois, pois."
“Vais bem munido?”
O Arnaldo dá uma gargalha nervosa.
"Tinha poucos trocos."
"Ai, o malandro."
Depois de um silêncio curto, o Arnaldo atreve-se o suficiente, sendo assim capaz de proporcionar na parte interior das minhas veias uma longa, silênciosa e interna gargalhada:
“Vem dali um barbeiro do caralh..”
“Barbeiro?”
“Nunca ouviste?”
“Vem dali um barbeiro, quer dizer, vem dali um frio.”
“Ah.”
“Percebeste?”
“Frio de cortar à faca?”
“Sim, daí o barbeiro.”

Quero conhecer esse génio. Ser amigo desse génio, eventualmente envolver-me em torneios de malha, com esse génio notável. O génio que disse: "Vem dali um barbeiro do caralh..". God damn it!

Depois, como isso do barbeiro era mesmo verdade, apesar de não o ter conseguido ver na realidade, talvez mais ao fundo da rua, não sei, entrei no carro e rodei a chave. O próximo gesto foi o de desligar o rádio. Ouvia-se um rolo de carne meio choramingas, dizia numa língua diferente: “oh, eu farei qualquer por amor, oh eu farei qualquer coisa por amor, oh eu farei qualquer coisa por amor, mas não farei isso.”

Olho de chimpanzé

Conta-se que a minha tia-avó, no dia do casamento, para além de estar a sofrer dos pés, quiçá uma unha encravada ou um joanete na fase do armário (não há provas), estava, e em relação a isso existem registos fotográficos que o comprovam, estava, definitivamente sendo alvo ou, melhor dizendo, sendo portadora, assim é que é, sendo portadora de um considerável e proeminente treçolho. Até bem recentemente acreditei que o treçolho não figurasse naquela lista de coisas terríveis que nos podem ser herdadas por uma tia-avó. Estava redondamente enganado. Hoje, carrego um treçolho bem adolescente no olho direito. Não é, de todo, desagradável, apesar de me retirar quase total visibilidade e, de vez em quando, largar um pus idêntico ao mel, só que menos doce (já provei). Parece assim, é como se tivesse um chimpanzé nas costas, só que no olho. Querendo ser optimista.. não, não consigo.

Supermercado das alcatifas

Um supermercado das alcatifas é um sítio espectacular. Ontem passei parte da minha tarde com a minha irmã num supermercado das alcatifas. Posso garantir que não me divertia tanto desde que vi a minha tia tropeçar num pacote de arroz carolino no hipermercado jumbo. Convém dizer que eu odeio tapetes. Aliás, abomino tapetes. Sou invulgarmente alérgico a tapetes. Acho que os tapetes são uma coisa feia, em alguns casos, até mesmo, horripilante. Então aqueles tapetes que têm a grossura de uma estante de madeira com para aí vinte cinco centímetros, daquelas que para além de uma boa porrada de livros podem também carregar com relativa facilidade algumas crianças obesas, esses tapetes assustam-me muito. Juro de pés juntos que tenho medo desses tapetes. No supermercado das alcatifas vi um tapete desses que olhou para mim e viu que eu não gostava dele, nem um bocadinho. Estava em saldo, o miserável. É bem feito, não fosses tão feio. O palerma tinha a cor de um bege assim para o caidito e uma coisa parecida com uns desenhos chalados, como se estivessem em coma ou fossem só apenas indivíduos muito tímidos. Mas não eram indivíduos no verdadeiro sentido do termo, eram mais uns riscos, acho eu. O mais sensato era afastar-me de ali, foi quando fui dar com a minha irmã sentada num desses pufs de cor eléctrica. Sentei-me ao lado, num desses pufs igualmente de cor eléctrica e pensei um pouco no tapete em si mesmo e como o tapete era, em si mesmo, algo de profundamente detestável. Eram tantos à minha frente que comecei a ficar tonto, um bocadinho enjoado, a imaginar que estava debaixo daqueles tapetes todos e alguns eram mesmo tapetões grandes e com pelo comprido. Alguns eram mesmo bichos brancos grandes, tipo ursos polares ou isso. É provável que tenha esbranquiçado um pouquinho porque a minha irmã foi prontamente buscar-me um copo de água. Um bocado de sorte, lá existia um daqueles garrafões de água gigantes ao contrário, como há nas salas de espera dos dentistas. A minha irmã sabe, desde sempre, que sou um tipo extremamente estranho, ainda assim não me faz muitas perguntas, o que faz dela uma pessoa com uma inteligência emocional muito acima da média. Talvez por isso, voltámos aos pufs, como se nada tivesse passado. A minha irmã pergunta o preço do puf porque até à data era o mais confortável que tinha conhecido, a tipa da loja diz que o puf custa cem euros e a minha irmã pergunta se não há desconto, mas a tipa diz que não, que aquele é um produto que se bende benhe tuôdo o áno. É pena.

O confessionário

A parte mais interessante do meu Natal aconteceu por volta das duas da manhã do dia 24 quando o tio fino reclama a minha companhia para ir comprar cigarros. A opinião geral lá em casa era de que não havia nada aberto aquela hora. Foi aí que eu tive de explicar que existem bombas de gasolina onde tipos, provavelmente tão energéticos e bem cheirosos como eu, vendem cigarros a atrasados mentais como o meu tio fino. O tio fino é viciado em cigarros desde os oito anos. A mãe foi dar com ele a meio de uma chuveirada com um cigarro aceso (português suave, o tio confessou mais tarde) pousado numa saboneteira pintada com o pé por um artista bastante dotado e sem mão. Adiante, metemo-nos no carro do tio fino, um peugeout 206 cor verde para o cáca e o tipo liga o rádio e está a dar qualquer coisa parecida com uma ópera. Eu pergunto ao tio fino se ele fazia questão de ouvir aquela tipa gorda, ele responde: sabes lá tu se ela é gorda, eu: costumam ser, ele: ai é? eu: não é? ele: sabes muito, sabes. Calei-me logo, até porque entretanto pareceu-me ver o pai natal ali perto da churrasqueira carvão II. Mas não devia ser porque quando olhei de novo, aquilo era só uma árvore. O tio fino começa então a fazer-me perguntas bizarras acerca da minha vida onde se incluíam patetices evidentes como: como é trabalhar num restaurante na periferia da cidade e se o Víctor Baía enchia sempre o depósito quando punha gasolina. Tentei não levar as questões muito a peito e respondi de forma educada. O tio fino ficou desapontado, provavelmente porque estava à espera que eu lhe dissesse que eu era um mártir tipo santinha alexandrina de balasar. Continuando, ele compra os cigarros e traz na mão um pack de cerveja. Pousa o carro ali perto da alfândega e sai do carro: desculpa lá, estava a precisar de libertar uns gases. Deprimente, penso. Diz: já viste o rio hoje? A minha única hipótese de sobrevivência era aquela garrafa de cerveja (cristal). Confiro com a mão, está fresca. Saco do canivete suíço e bato a porta do carro: o que é que tem? ele: Porra! Já estás a beber seu animal? É parvo, digo: era para guardar? O tio fino dá uma gargalhada: tu és um gajo esperto, meu burro. Lembrei-me da gata bílis, não sei porque carga de água e, pouco depois, relembrei os azulejos miseráveis da minha casa de banho. O tio fino estava entretido a cantarolar qualquer coisa como um fado de Coimbra e eu achei por bem deixá-lo estar. Foi aí que senti qualquer coisa muito perto da melancolia e, para contrariar, disse ao tio fino que já tinha pensado em ir para padre. O tio fino não acreditou. Eu disse que sempre gostei de saber basicamente tudo sobre a vida das pessoas, católicas e não só. O confessionário era também um sítio fixe para me esconder do meu primo quando brincássemos às escondidas. Logo a seguir, o tio começou a contar como tinha sido a primeira vez que tinha andado na roda gigante. As dúvidas relativas à minha potencial vocação dissiparam-se um pouco mais quando olhei para o relógio e vi que eram três e meia da manhã. Tinha dito apenas duas palavras. Foi bom. Gosto de ser o poço onde os outros deixam, muito ao de levezinho, cair os seus puzetes mentais.

Amor de Tia

Tia Georgina, tenho pena que já não estejas cá. Tu foste a responsável pelos Natais mais felizes da minha vida. Tia Georgina, Tia Georgina. O nome de madrinha ficava-te tão bem. Em pequeno, lembro-me que não conseguia dizê-lo direito. Dizia: Georiegeina, e deitava sempre um cuspo nojento por causa dos gês e do erre do teu bonito nome. Tu sempre foste compreensível e deixavas-me tratar-te por Gina. Nunca soubeste, mas nesses dias de véspera de Natal, quando ias lá a casa levar-me a prenda, a minha mãe enchia-me de pancada porque eu não era capaz de dizer o teu nome como deve ser. Tinha sido tão mais fácil ter-te tratado por madrinha. Aliás, tinha sido o mais lógico, já que eras, efectivamente, a minha madrinha. Oh! Madrinha! Ao longo da minha vida só escrevi uma carta, e não foi a um morto mas, por favor, tenta compreender, ainda dói um bocadinho. Oh! Tia Georgina, lembras-te? Feijãozinho, era assim que tu me chamavas. Dizias daquela forma engraçada: miu fêjunzinhô, devia ser por estares em França, há muitos anos, com o Tio Adélio. Vou confessar-te uma coisa Tia Georgina, eu acho que a minha mãe sempre teve inveja de ti. Quando tu davas aqueles pus à frente de toda a gente, sem nunca te atrapalhares, a minha mãe tinha inveja porque mesmo nessas alturas tu sabias manter a classe, Tia Georgina. Nunca mandavas as culpas para os outros e isso era categoria. Uma vez o Tio Adélio quis encobrir-te e dizer que tinha sido ele a dar o pu porque estava a jantar em vossa casa um tipo importante que era um padeiro de Valongo, mas tu não deixaste. Começaram a dizer muitos palavrões, alguns que eu nunca tinha ouvido. Eu estava em tua casa porque a minha mãe, na sua idiotice, tinha rachado a cabeça a limpar o polibã, lembraste? Mas, adiante, o Tio Adélio continuava a dizer que tinha sido ele e tu não desistias e dizias: “Cala-te Adélio, que tu nem um ovo sabes estrelar, quanto mais dar um peido.” Eras muito mais inteligente do que ele e foi por isso que ele depois te bateu em frente ao padeiro e eu encontrei-te mais tarde na cozinha à procura do pacote de gelatina. Cá entre nós, Tia Georgina, agora podes confessar que o que tu procuravas mesmo era um venenosinho assim, para ratos, ou isso. Enfim, coisas da vida, afinal acabaste por ir tu na frente, Tia Georgina. Tinhas uns chinelos cor-de-rosa com pompons muito fofinhos que deste à filha da porteira quando os teus joanetes já não te permitiam usá-los. E dançavas rock n´roll, Tia Georgina. Porra, tu eras um animal possante, um jacaré provavelmente. Uma coisa que não percebia era como é que vocês, tu e o Tio Adélio, faziam tanta pasta a fazer cacetes. Que burro que eu era. Vocês eram praticamente donos de metade das padarias em Toulouse! Meu Deus, que sonho. Trazias-me sempre as melhores prendas. Como é que poderei esquecer o dia em que me trouxeste a consola Nintendo com aquele imbecil do Super Mário? Tu trazias uma caixa dentro de outra caixa, dentro de outra e com muitos jornais, para que o tempo de descobrir a verdadeira prenda fosse demorado. Isso era tão bonito, Tia Georgina, essa tua atitude. A minha ansiedade atingia valores muito altos, mas valia a pena. Antes de te ires embora, costumavas-me dar um beijo na bochecha, e eu não dormia a noite toda com a marca do teu batom que tinha um cheiro terrível a mofo. Mas não podia limpar, claro não. Se eu limpasse a cara sentia que te estava a trair, de qualquer maneira. Acho que isto mostra um bocado o bom rapaz que eu era na altura. É triste pensar no meu Natal sem ti. Para o caso de conseguires ler isto, ficas a saber que a minha mãe continua a dar-me pares de meias ao xadrez todos os anos e o meu pai diz-me que põe dinheiro numa conta (é mentira) de certificados de aforro no correio. Mereces mais do que isto, mereces mais do que um simples post, num mísero blog na internet. Eu acho que tu não mereces ter morrido.




Nota: A Tia Georgina morreu afogada numa praia perto da Póvoa de Varzim.
O meu Tio Adélio ainda é vivo, casou-se segunda vez com uma gaja que não aparece muito.

Joaquim

Não morri. Isto, para avisar os mais optimistas. Se tudo correr mal, não devo morrer tão cedo. Pelo menos, não tenho gripes desde o quinto ano, e isso deve querer dizer alguma coisa. Por exemplo, o Joaquim José, que era um tipo intragável, estava sempre com ranho. Normalmente era sempre um ranho fluído e transparente que escorria até aquele espaço entre o nariz e a boca. Depois, o porco, usava a ponta da língua para impedir que o ranho descesse até ao lábio de cima. Durante as aulas de ginástica, não sei porquê, o ranho dele não escorria, formava quase sempre uma bola de ranho dentro da própria narina, mas sem nunca sair de lá. Era um bocado como uma bolinha de salão só que, em vez de ser de sabão, era de ranho. Aquilo tinha vida própria, era como se a bola de ranho tivesse tudo controlado e dominasse violentamente o Joaquim José. Quando o Joaquim José fazia abdominais com muita força a bola aparecia e desaparecia, aparecia e desaparecia. Que louco! Nunca fui capaz de fazer isso com o meu ranho. Também, nunca fui um tipo habilidoso, quer dizer, nunca me especializei em nada, por exemplo, tenho um amigo que é formidável em demolhar bacalhau, mas eu não. Quer dizer, faço coisas, mas coisas que não contam, lavar os dentes, e isso. Quer dizer, minto. Ganhei uma vez um corta-mato organizado pelo meu padrinho, mas isso não quer dizer que saiba, efectivamente, correr. Houve um pic-nic depois do corta-mato e o meu padrinho fez um discurso sobre fruta exótica e desastres rodoviários. Não me lembro particularmente do que ele disse porque estava concentrado nos panados da minha tia, mas no fim, estava tudo espantado, talvez por nunca terem percebido que o meu padrinho era, realmente, um tipo inteligente. Tenho de ver se combino um almoço com o gajo, bebemos um bom tintol e o gajo ensina-me mais qualquer merda. Nunca mais me esqueci, no dia do corta-mato, plantámos uma árvore e a ideia foi dele, do meu padrinho. Por isso, estão a ver.

Carne ou frango

É verídico, já me aconteceu duas vezes. Pergunto de que são as empadas, ao que as tipas respondem: "De carne e de frango".

O Antunes e o copo de cerveja

O Antunes caiu dentro de um copo de cerveja. Estava tudo a correr muito bem. Mas o que se passou foi isso mesmo. Parece que sem dar conta caiu dentro de um copo (talvez uma caneca) de cerveja. Tentaram proceder o salvamento. Chamaram-se tipos competentes e isso. Mas tudo o que se sabe é isso mesmo, apesar de várias pessoas virem dizer que isso é impossível, que ele e a Tina mudaram-se foi para o Algarve, uma comunidade qualquer, com tipos que andam nus e vivem da luz do sol. Dá para rir. E ainda dizem que lá se fazem muitos crepes e isso, com relva e bolotas que apanham lá no meio do mato. Mas eu sinceramente, não é para querer ser do contra, mas acredito mais na versão do copo, não sei, acho mais provável. Sabendo eu bem quem é o Antunes. Porra, é como se estivéssemos a falar da mesma pessoa, eu ou ele. Mas estava a dizer: copo ou caneca, uma coisa dessas, é igual. Agora, lá dentro mesmo do copo ou caneca não sei o que se passa. Já tentei ligar, tem o telemóvel está desligado. O Antunes não tem caixa de correio activa. Teve, em tempos. Acho que era uma música dos Guns. Depois tirou porque deixou de se divertir com aquilo. Enfim. Ultimamente sabia que andava preocupado, acho que uma fã ou qualquer coisa do género, a culpa foi do blog. Ela ficou a gostar muito do Antunes e depois toca a ameaça-lo, quer dizer comprava coelhinhos e coisas a dizer amo-te. Acho que a Tina não gostou, mas daí a cair no copo, não sei. Pá e ele nunca foi dessas confusões. Agora se foi por isso que ele deixou isto, não sei. Talvez chamá-lo de volta. Não sei, tirá-lo fora do copo, se der. É difícil.


Nota explicativa: Isto era eu na reinação. Provavelmente para justificar a minha ausência. Entrei em contacto com gente de outros planetas. Foi giro. Foi mesmo giro. O qwerty era o mais porreiro. Andava sempre com uma mochila às costas onde transportava uma tartaruga gigante. E nunca tomava banho, o porco. Prometeu que vinha cá, eu fazia-lhe um chouriço assado e bebia uma pinga, mas o gajo tinha agendado ir ter com outro tipo que tinha conhecido numa visita de estudo a neptuno.

EM BREVE

Devo uma explicação a todos os meus leitores. Em breve, numa banca perto de si.

Ai a minha vida

Engordei três quilos desde que ajudo no restaurante do pai da Tina. As calças apertam-me e temo não poder a voltar a vestir as levis em segunda mão oferecidas pelo Tó, trouxe-me o gajo quando foi a uma visita de estudo a Londres. O Tó é um tipo porreiro, é o meu melhor amigo. Não tenho falado nele porque o gajo está a estudar na Holanda e um tipo esquece-se. Esquece-se, quer dizer. Não me esqueço dele. Porra. Um porreiro do caraças. Meu amigo desde os 16 anos. Costumamos ir para os copos e apanhamos sempre grandes fardas. Depois acabamos a cantar ou a comer croissants de uma confeitaria em Matosinhos que tem os melhores croissants do pais. A sério. Nunca comi uns croissants tão bons. O gajo é nadador do caraças, um atleta como deve ser. Já ganhou medalhas e tudo, o boi do caraças. O gajo agora anda a curtir em Amesterdão e eu aqui. Porra sinceramente. Mais miserável é impossível. De vez em quando manda-me uns mails com umas fotos de uma gajas bem boas e o tipo lá no meio enroscado nelas, tudo já bem atestado com canecas de cerveja e o caraças. Outro dia manda-me uma, o gajo em tronco nu, com um boné do Porto, palito ao canto da boca agarrado a um barril de cerveja. É mesmo atrasado mental aquele Tó. Abraço meu boi.

Calendário Pirelli

O Jonas está nos hospital. Sofreu um acidente vascular cerebral e é bem capaz de não recuperar. Coitado. A mulher dele está desesperada porque não tem ninguém para segurar a loja e, como sabem, o rendimento deles vem exclusivamente da pinga. Não percebo bem a urgência disso da loja. Para além de ricos, acho que nesta altura é mais importante procurar enfermeiras ou tipos que possam ficar com o Jonas durante a noite do que um empregado para a loja dos vinhos. Mas as pessoas surpreendem-nos nas alturas menos prováveis. Um exemplo que ilustra bem esta frase que acabei de escrever, é a Paula. Outro dia parou para pôr gasolina. Entra na bomba, finge que não me vê e dirige-se para pagar na caixa do Zé. Eu estava a contar quantos smarties há num canudo e preferi continuar com os olhos baixos a ver o que é que ela fazia (a nossa relação após o fim do nosso namoro, mantinha-se cordial e educada, pensava eu). Antes de sair ouço a voz dela, bem alto do fundo: “PALHAÇO”. Esta mulher é doente, no mínimo. Palhaço? Eu? Eu? Palhaço? Eu sou o António, não sou palhaço. Que coisa estúpida. Bem, mas voltando à questão do Jonas. O meu pai combinou com ela e fui lá a casa falar e em princípio começo o mais breve possível. Enquanto não trato de tudo na bomba (terei de desistir da bomba aos dias da semana) parece que é uma sobrinha solteirona deles que vai remediar a situação. Estar mergulhado numa fase de profundas mudanças anima-me por um lado, mas por outro desespera-me com violência. Há mais novidades. Ao fim-de-semana à noite tenho ido ajudar o pai da Tina que tem um restaurante em Areosa. Sirvo à mesa e ajudo na cozinha. Para ganhar euros extra, acordei com o Sr. João (pai da Tina) limpar talheres até aquilo fechar. A Tina costuma estar lá (é ela que faz a mousse de chocolate) e prepara-me pratos especiais. O melhor é um bife praticamente cru com molho de alho! É fantástico, porque para além do cheiro da carne crua inspirar-me de forma decisiva, é uma forma saborosa de evitar panikes e lanches mistos. Ela apresenta-se normalmente muito sexy e extremamente apetecível, apesar de achar que é, talvez, um bocadinho alta demais. Aliás, eu dou-lhe pelo ombro, o que, num cenário de eventual romance, não é, de todo, agradável. O tipo que vende bonecos da Expo é um gajo absolutamente doido. Outro dia fui para os copos com ele e o tipo é um gajo impecável. Jogámos uma partida de bowling e quando já estávamos bastante bebidos perguntei-lhe se era ele que andava a dizer que eu andava a roubar na bomba. O gajo ficou basicamente incrédulo e disse: “Porquê? Era segredo?”. Dá uma gargalhada com tanta vontade que se acaba por engasgar. Gostei do humor do gajo e depois disso dei-lhe um abraço com uma grande e repetida palmada nas costas, que também o ajudou na questão do engasganço. O gajo é porreiro e, para além de tudo, é um gajo que não faz praticamente nada, o que naturalmente cria uma sensação de enorme afinidade comigo.


Ninguém me garante que o Jonas não consegue ver. Vou visitá-lo amanhã e levo comigo um calendário Pirelli.

Help, I need somebody, HELP

Temo que algo de extraordinariamente mau possa vir a acontecer. Não sou bruxo. Mas acho que a culpa só pode ser deste blog. Estou praticamente viciado nesta porcaria e no álcool.

Canção mais ou menos apalermada

Olá boa tarde, queiram fazer o favor de se sentarem, acho que há cadeiras para todos. Quem chegou tarde, pode sempre puxar essas almofadas baratas que estão em cima do sofá e sentar-se no chão. Está tudo? Ora bem, aqui vai,
O meu nome é António A. Antunes e existo há alguns anos, ao contrário do que se diz por aí. Dizem-se muitas coisas e às vezes coisas que são mentira, perfeitas calúnias, disparates monstruosos e depois quem se lixa sou eu, porque neste caso, é de mim que se fala. Pois. Queria ver se fosse convosco. Quer dizer, eu nem vos conheço. Ou conheço-vos mal, tirando dois ou três casos. Desculpem, mas borrifo-me de forma considerável para o que vos acontece, desde que não seja uma coisa grave, como é, por exemplo, a negação da vossa existência (quer ela seja inútil ou não). Isso é um assunto grave e sério, como devem imaginar. Caso não consigam imaginar, por favor esforcem-se um bocadinho. É provável que também vocês descubram que há uma forte possibilidade de estarem a ser confundidos com fantoches ou espantalhos mal vestidos. Enfim. Como prova de que tenho um nariz, apito no trânsito e et cetera e tal, vou. Não, não chorem, não pensem que vou abandonar o barco. Para além de ter uma simpatia geral pelo que aqui acontece, tenho orgulho suficiente e estou longe de estar deprimido. Há também coisas que gosto bastante e das quais não abdico de forma alguma. Falo do meu cão e dos comentários absurdos da dona Olga (penso que nunca vos falei dela). Não vou deixar aqui o número de contribuinte, mas uma canção que fiz quando tinha por volta dos dez anos. É assim:

Na minha casa há uma cozinha
No canto é onde dorme o Jeco
Gosto de comer pão com tulicreme
e andar de bicicleta
Gosto de brincar com fisgas

O pato Donald é maricas
O pato Donald é maricas
(estas duas frases acrescentei-as mais tarde, num momento de idiotice)


O ritmo é de uma música, que não sei o nome, dos queijinhos frescos e da Ana Faria. Se isto vos soou, de alguma forma, estranho, aviso-vos que têm, obviamente, toda a razão. Portanto, é isto. Já está. Podem ir embora.

Desentop

É lixado. Especialmente quando temos a mania que somos o rambo ou o mestre André. Passo a explicar. A minha sanita entupiu. O meu pai diz que a culpa não foi dele, mas talvez seja mentira porque eu, a minha mãe e a minha irmã, tínhamo-nos servido dela antes, sem qualquer problema. Comecei com a escova a tentar alcançar nas profundezas qualquer coisa que fosse o motivo do entupimento. Às vezes, dos bolsos das calças, caem os objectos mais surpreendentes. O meu pai começa a pressionar: “Sai daí, deixa-me ver isso.” O meu pai não gosta de bricolage, nem tem paciência para qualquer tipo de trabalho que exija calma e concentração. A certa altura começa a puxar o autoclismo várias vezes seguidas e eu mando-o estar quieto e ir buscar-me uma vassoura. Eu sentia qualquer coisa lá ao fundo e não me estava a apetecer meter o braço por ali a baixo. De repente (antes do meu pai chegar com a vassoura) a água começa a subir e a transbordar devagarinho. Os meus pés ficam ligeiramente molhados (estava descalço) e vestígios de papel higiénico desfeito vêm à tona. É nojento, mas muita sorte tive eu em não encontrar fragmentos de poios, ou isso. É nessa altura que decidimos ligar para os tipos do desentop. Passo a transcrever o magnífico slogan desta empresa: 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano (porreiro pá, estes gajos preocupam-se mesmo com o próximo, é bonito). Passado dez minutos, chegam dois tipos com mau aspecto e, um deles, com desagradáveis vestígios de um problema de acne mal resolvido na adolescência. Traziam umas sweat-shirts amarelas com a palavra desentop estampada, atrás, a letras garrafais. Ridículo. Pareciam dois palhaços. Sacam de material topo de gama. Ele eram tubos, ele eram aparelhos eléctricos, ele era tudo. Metem aquilo por ali a baixo. Diz o tipo, passado meio minuto: “Já detectámos os problema”, diz o meu pai: “Ai sim? Então estamos com sorte, carág. Deve sair baratinho.” “É assim, nos nossos serviços há um parte, que é esta, em que paga pela identificação do problema. Depois, dependendo da gravidade, da dificuldade de resolução... Isso depende. Isso é outra parte.” Portanto. Não sei se me expliquei bem. Com a desentop pagamos, numa primeira parte, para que nos identifiquem o problema e, depois, numa segunda fase, pagamos para nos resolvam, efectivamente, o problema anteriormente detectado. Uhm. Parece-me justo, não? Em nove minutos o serviço ficou pronto (ena, eles são bons). Antes dos anormais arrumarem os tubos e porem os kispos com desentop estampado nas costas (patéticos) o meu pai passa-lhes um cheque no valor 120 euros. A mim, dá-me uma imensa vontade de mandar um grande pú.

O que é que eu fiz?

Ontem, quando cheguei a casa às seis e meia da manhã, descobri a minha mãe deitada no sofá. Foi assustador, parecia mesmo o papão, o homem do saco ou um desses tipos diabólicos, ladrões ou assim. Estava embrulhada na manta ao xadrez, que eu recebi da minha Tia Céu, num Inverno em que me constipei muitas vezes. Na mesa, um pacote de rebuçados da régua a meio, uma caixa de lenços kleenex e uma garrafa de compal ligth manga-laranja. A televisão, baixinha no discovery channel, rematava de forma perfeita aquele cenário perfeitamente grotesco e ameaçador. Tentei avançar sem fazer barulho, mas ela chamou-me:
António?
Sim?
Que horas são?
Devem ser quase sete, não tenho relógio. O que é que estás aí a fazer?
Aproximei-me do sofá e fiquei de pé. Estava bastante cansado, tinha ido fazer um bocado de natação (tenho notado um pneu detestável na zona abdominal) antes do trabalho e não me apetecia estar ali em conversas.
Senta-te aí, meu filho.
A minha mãe estava com uma cara abatida e com o cabelo despenteado, o que era deveras extraordinário, já que a cabeleira dela está sempre impecavelmente tesa.
O que é que foi?
Senta-te.
Os meus pais estão casados há trinta anos. O divórcio era pouco provável.
Estou preocupada contigo.
Comigo?
Tu andas bem?
Ando, porquê?
E na bomba?
Na bomba tudo bem. O que é que.. não estou a.
É que andam aí a dizer.
Andam aí a dizer o quê?
Que tu andas a roubar na bomba.
Alto. Eu nunca na vida roubei o que quer que fosse daquela merdosa e miserável bomba de gasolina. Roubar? Até podia ser um tipo que gostasse muito de chocolates e, para quem gosta muito de chocolates, uma bomba de gasolina é um local muito perigoso. De resto, aquelas madalenas e aqueles foleiros pacotes de bolachas não são puto atractivos.
Roubar? Quem é que disse isso?
A Adelina do segundo andar diz que ouviu dizer.
(A Adelina do segundo andar é a velha das hemorróidas que falei num post antigo)
A Adelina do segundo andar? A gaja é totalmente doente.
Exaltei-me de uma forma bastante irracional. A verdade é que não estava a perceber como era possível cair sobre mim uma acusação dessas.
Tu não precisas de roubar filho. O que é que te faz falta? Diz-me que eu e o teu pai, se pudermos..
Não ouvi mais nada e fui para o quarto. Tirei o telemóvel do bolso. Tinha uma mensagem da Tina, que tinha chegado com atraso: “Vim à ribeira beber um fino e lembrei-me que tenho uma garrafa de um tinto m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o lá em casa para ti. Podíamos combinar qualquer coisa amanhã. Beijos.” Estarei, de alguma forma, a dar falsas esperanças a esta simpática rapariga de cor? Ela até é uma tipa porreira, mas não estou, definitivamente, virado para desenvolver qualquer tipo de affair com quem quer que seja. Houve uma altura que pensei que me estava quase apaixonar, mas rapidamente cheguei à conclusão que sou apenas um tipo que se ilude com muita facilidade. Foi como uma vez, em que me tentaram dar vitela assada no forno como se fosse leitão da bairrada, e eu acreditei. Talvez quem acabe por lucrar com isto tudo sejam os tipos das campanhas publicitárias dos hipermercados e assim. O facto de ser um bocado lorpa deixa-me, por vezes, nervoso, mas a verdade é que tenho convivido de forma saudável com a minha pessoa durante estes anos. E, é mesmo impressionante como ter um blog acaba por aumentar a minha auto-estima. Claro que há dias em que me sinto um autêntico imbecil por continuar com isto. Enfim. Depois, para animar, costumo ler um patinhas (almanaques "hiper" dos antigos) e fica tudo bem.


nota: Há um tipo bastante para o palerma, que anda lá de vez em quando pela bomba a fazer umas promoções tenebrosas a umas coisas que ninguém comprar (desta última vez era o boneco Gil, aquele idiota da tromba azul). Às tantas, o gajo quer é queimar-me para ver se apanha o meu lugar. Não o posso acusar sem ter provas, mas vou tratar de tirar esta história a limpo.

O domingo é uma chatice

Hoje estou de folga. Tomei um banho de imersão demorado e depois fiz um ovos mexidos com presunto. Os meus pais e a minha irmã (suponho que o meu futuro cunhado também) foram almoçar a uma churrasqueira em Valongo e ainda não chegaram. Os tipos têm um frango com piri-piri delicioso, mas lá dentro há um fedor insuportável a fritos que me deixa vagamente deprimido. Ainda pensei em convidar a Tina para vir cá a casa, mas estou com muita preguiça e sem saldo no telemóvel. Daqui a um bocado vou fazer crepes (descobri um site porreiro com mais de 50 receitas de crepes) e abrir uma cerveja. Talvez faça crepes mistos. Depois vou-me sentar no sofá e ver as presidenciais. A política não me interessa particularmente, mas há qualquer coisa de cómico naquela palhaçada toda. Não tenho o hábito de votar, mas quando o faço, chego a casa mal disposto e um pouco enjoado. Acho que isso tem a ver com o facto de não me acreditar em quase nada. Sou um tipo céptico, por natureza.

A explicação

Tudo começou num dia de sol. Estou a brincar. A culpa foi, em parte, da minha professora de primária, a professora Ana Teresa. Uma vez, dei um erro terrível numa composição. Lembro-me bem, era um texto sobre o Outono e eu impliquei com a palavra. Escrevi “Outobro” e a Ana Teresa, que era uma tipa implacável e feroz, mandou-me, de castigo, escrever Outubro cem vezes. Podem imaginar o que é escrever cem vezes a palavra Outubro. Foi especialmente traumático, porque às tardes, costumava ir brincar com o Pipas. O Pipas era um amigo meu bastante rico. Na casa dele havia bichos embalsamados nas paredes e, num canto priviligiado do escritório, uma máquina fotocopiadora! Uma máquina fotocopiadora! Naquela altura, ter uma máquina fotocopiadora em casa era muito provavelmente o mesmo que termos, actualmente, uma central nuclear dentro da nossa casa de banho. Impressionante. Ainda hoje, uma simples resma de papel de máquina faz-me lembrar o Pipas. Grande Pipas, que andará ele a fazer? Coitado, o tipo tinha problemas com ácaros e desconfiava-se que também era alérgico ao leite. Ao lanche, a empregada ia-nos comprar bolicaos à mercearia da esquina e era mesmo porreiro porque a mãe do Pipas deixava-nos levar copos de vidro com tang de ananás (cor de chichi) lá para fora. No jardim (com piscina em forma de héxagono, ridículo) entretínhamo-nos a fuzilar minhocas e espremer formigas. Depois fazíamos as respectivas celebrações fúnebres e eu, quase sempre, voltava para casa com uma náusea terrível e alguns problemas morais. Consciência ética bastante desenvolvida para a idade? Talvez. Dizem que em miúdo era um tipo estranho, o que não me admira. Mas como estava a dizer, nesse dia tive de ficar em casa a escrever a palavra Outubro. E dei por mim a pensar que talvez fosse boa ideia ser bom naquilo, no português. Não dar erros. Lembro-me da borracha que tinha à minha frente quando tive este pensamento, era uma pelikan das verdes, que saudades... as velhas pelikans verdes. Melhor que não dar erros, só mesmo ser poeta. É claro que na altura, não pensava concretamente nestes termos, mas mais tarde, talvez muito por influência de um professor que tive no secundário, o professor António Velhote, imaginei-me várias vezes como o verdadeiro poeta marginal. Esse tipo (o professor António Velhote) era absolutamente doido, uma vez a meio de uma aula, saca de uma maçã (tipo golden) e põe-na em cima da mesa. Depois diz: “Vão olhar para esta maçã durante o tempo que eu disser e depois quero que façam um poema.” Achei o desafio maravilhoso e lembro-me que escrevi qualquer coisa relacionada com o deserto e formigas. Era uma coisa absurda por completo, mas o professor deve ter gostado, aliás chegou mesmo a oferecer-me um livro com poemas de Antero, que li numa noite de S. João deprimente passada em casa dos meus avós. Isto tudo para explicar a minha relação com a língua portuguesa e aproveitar para agradecer os comentários favoráveis à minha escrita. Professora Ana Teresa, Professor António Velhote, um muito, muito, obrigado.


Rodapé: Como fui tirar um curso de gestão? Porque trabalho numa bomba de gasolina? Podia divagar sobre isso num próximo post, mas acho que a resposta não estende muito para além do simples facto de eu ser um tipo miserável. E há outra coisa que é, este blog, não ser, de todo, um diário. Por isso, essas explicações talvez não sejam, de facto, pertinentes.