A melancolia é de cristal

Pertenço à raça dos que preferem ser crianças para sempre. Apesar da cerveja. As crianças normalmente não gostam de cerveja. Eu gosto. Gosto bastante. Cerveja talvez seja a coisa que eu gosto mais, a seguir aos pastéis de bacalhau da senhora Arminda. Também gosto de me rir dos outros, mas estou cansado que ninguém me leve a sério, até na padaria. Passou-se anteontem, tinha vindo de jogar futebol com cinco ou seis (éramos dez na realidade) brutos que gostam de jogar descalços e que acabam com os pés a sangrar e unhas ao dependuro. É estúpido, pois, mas é mesmo o que eles são. Estúpidos. Estava a dizer, o jogo nunca foi uma coisa que me agradou, quer dizer, falo do jogo em grupo, o jogo onde há uma equipa contra outra equipa. No fundo, tenho pena de todos os jogadores de equipas e aproveito para exprimir, aqui, a minha total compaixão para com todos os jogadores de equipas. Cedo cheguei à conclusão que jogadores são os que estão de fora, atentos à figura de parvoíce colectiva que existe em qualquer equipa de seres humanos. É parolo todo aquele entusiasmo em torno do “um por todos, todos por um”, é parolo e saloio. É primário. Que se lixe o outro. Não tenho por hábito esfolar qualquer parte do corpo, muito menos no âmbito de um jogo pateta onde nem sequer há dinheiro ao barulho. Por dinheiro, sou capaz de tudo. Uma vez, por cinquenta escudos, bebi um copo de plástico de trinta e três centilitros cheio de vodka. Desculpem, correcção: não bebi o copo, bebi o que estava dentro do copo, se bem me entenderam. Tinha catorze anos e a cabeça rodou, um pouco, alguns minutos após a ingestão do líquido. Acredito que esse tenha sido um momento mágico, pois nunca mais fui o mesmo. Estava no quarto da Raquel Pereira que era uma tontinha que tinha uma paixão por mim porque eu seduzia as professoras com palavreado floreado que aprendia com as tias do meu pai e fatias de bôla de carne que a minha avó me metia no bolso da pasta. Acho que era por causa disso, nunca fui bonito, nem abdominais nem nada. E, de repente, estas coisas que escrevo são capazes de atravessar, devagarinho, as entranhas mais cínicas da minha pessoa. E isso é nostálgico, tão nostálgico que sou obrigado a levantar-me e ir buscar uma cristal mini para segurar a lágrima. Chorar não é comigo, chorar para fora. Mas, agora mesmo, é como se estivesse em pelota. A sério. Acontece quando digo qualquer verdade. E a bôla de carne da minha avó não consegue ser igualada por mais nenhuma. A Raquel Pereira não entrou na universidade. Ajuda numa loja decoração e tem muito jeito para vender monos, menos mal. O que aconteceu na padaria, já não importa. Vou-me sentar um bocado no sofá.

3 comentários:

sarita disse...

he he he ai tunes, seu ganda maluco! (curtiste a chalaça? ai tunes, he he he esta foi boa) quero lá saber da padaria e se a tua vozinha amassa bem a bola. conta masé da cabeça a andar à roda no quarto da tal raquel... gandabraço

António A. Antunes disse...

Já vai miúda, sabes que sou um tipo muuuuito preguiçoso.

Anónimo disse...

venha uma mini para mim tb.
http://www.asteoriasdequidam.blogspot.com/