Tia Georgina, tenho pena que já não estejas cá. Tu foste a responsável pelos Natais mais felizes da minha vida. Tia Georgina, Tia Georgina. O nome de madrinha ficava-te tão bem. Em pequeno, lembro-me que não conseguia dizê-lo direito. Dizia: Georiegeina, e deitava sempre um cuspo nojento por causa dos gês e do erre do teu bonito nome. Tu sempre foste compreensível e deixavas-me tratar-te por Gina. Nunca soubeste, mas nesses dias de véspera de Natal, quando ias lá a casa levar-me a prenda, a minha mãe enchia-me de pancada porque eu não era capaz de dizer o teu nome como deve ser. Tinha sido tão mais fácil ter-te tratado por madrinha. Aliás, tinha sido o mais lógico, já que eras, efectivamente, a minha madrinha. Oh! Madrinha! Ao longo da minha vida só escrevi uma carta, e não foi a um morto mas, por favor, tenta compreender, ainda dói um bocadinho. Oh! Tia Georgina, lembras-te? Feijãozinho, era assim que tu me chamavas. Dizias daquela forma engraçada: miu fêjunzinhô, devia ser por estares em França, há muitos anos, com o Tio Adélio. Vou confessar-te uma coisa Tia Georgina, eu acho que a minha mãe sempre teve inveja de ti. Quando tu davas aqueles pus à frente de toda a gente, sem nunca te atrapalhares, a minha mãe tinha inveja porque mesmo nessas alturas tu sabias manter a classe, Tia Georgina. Nunca mandavas as culpas para os outros e isso era categoria. Uma vez o Tio Adélio quis encobrir-te e dizer que tinha sido ele a dar o pu porque estava a jantar em vossa casa um tipo importante que era um padeiro de Valongo, mas tu não deixaste. Começaram a dizer muitos palavrões, alguns que eu nunca tinha ouvido. Eu estava em tua casa porque a minha mãe, na sua idiotice, tinha rachado a cabeça a limpar o polibã, lembraste? Mas, adiante, o Tio Adélio continuava a dizer que tinha sido ele e tu não desistias e dizias: “Cala-te Adélio, que tu nem um ovo sabes estrelar, quanto mais dar um peido.” Eras muito mais inteligente do que ele e foi por isso que ele depois te bateu em frente ao padeiro e eu encontrei-te mais tarde na cozinha à procura do pacote de gelatina. Cá entre nós, Tia Georgina, agora podes confessar que o que tu procuravas mesmo era um venenosinho assim, para ratos, ou isso. Enfim, coisas da vida, afinal acabaste por ir tu na frente, Tia Georgina. Tinhas uns chinelos cor-de-rosa com pompons muito fofinhos que deste à filha da porteira quando os teus joanetes já não te permitiam usá-los. E dançavas rock n´roll, Tia Georgina. Porra, tu eras um animal possante, um jacaré provavelmente. Uma coisa que não percebia era como é que vocês, tu e o Tio Adélio, faziam tanta pasta a fazer cacetes. Que burro que eu era. Vocês eram praticamente donos de metade das padarias em Toulouse! Meu Deus, que sonho. Trazias-me sempre as melhores prendas. Como é que poderei esquecer o dia em que me trouxeste a consola Nintendo com aquele imbecil do Super Mário? Tu trazias uma caixa dentro de outra caixa, dentro de outra e com muitos jornais, para que o tempo de descobrir a verdadeira prenda fosse demorado. Isso era tão bonito, Tia Georgina, essa tua atitude. A minha ansiedade atingia valores muito altos, mas valia a pena. Antes de te ires embora, costumavas-me dar um beijo na bochecha, e eu não dormia a noite toda com a marca do teu batom que tinha um cheiro terrível a mofo. Mas não podia limpar, claro não. Se eu limpasse a cara sentia que te estava a trair, de qualquer maneira. Acho que isto mostra um bocado o bom rapaz que eu era na altura. É triste pensar no meu Natal sem ti. Para o caso de conseguires ler isto, ficas a saber que a minha mãe continua a dar-me pares de meias ao xadrez todos os anos e o meu pai diz-me que põe dinheiro numa conta (é mentira) de certificados de aforro no correio. Mereces mais do que isto, mereces mais do que um simples post, num mísero blog na internet. Eu acho que tu não mereces ter morrido.
Nota: A Tia Georgina morreu afogada numa praia perto da Póvoa de Varzim.
O meu Tio Adélio ainda é vivo, casou-se segunda vez com uma gaja que não aparece muito.
Amor de Tia
Joaquim
Não morri. Isto, para avisar os mais optimistas. Se tudo correr mal, não devo morrer tão cedo. Pelo menos, não tenho gripes desde o quinto ano, e isso deve querer dizer alguma coisa. Por exemplo, o Joaquim José, que era um tipo intragável, estava sempre com ranho. Normalmente era sempre um ranho fluído e transparente que escorria até aquele espaço entre o nariz e a boca. Depois, o porco, usava a ponta da língua para impedir que o ranho descesse até ao lábio de cima. Durante as aulas de ginástica, não sei porquê, o ranho dele não escorria, formava quase sempre uma bola de ranho dentro da própria narina, mas sem nunca sair de lá. Era um bocado como uma bolinha de salão só que, em vez de ser de sabão, era de ranho. Aquilo tinha vida própria, era como se a bola de ranho tivesse tudo controlado e dominasse violentamente o Joaquim José. Quando o Joaquim José fazia abdominais com muita força a bola aparecia e desaparecia, aparecia e desaparecia. Que louco! Nunca fui capaz de fazer isso com o meu ranho. Também, nunca fui um tipo habilidoso, quer dizer, nunca me especializei em nada, por exemplo, tenho um amigo que é formidável em demolhar bacalhau, mas eu não. Quer dizer, faço coisas, mas coisas que não contam, lavar os dentes, e isso. Quer dizer, minto. Ganhei uma vez um corta-mato organizado pelo meu padrinho, mas isso não quer dizer que saiba, efectivamente, correr. Houve um pic-nic depois do corta-mato e o meu padrinho fez um discurso sobre fruta exótica e desastres rodoviários. Não me lembro particularmente do que ele disse porque estava concentrado nos panados da minha tia, mas no fim, estava tudo espantado, talvez por nunca terem percebido que o meu padrinho era, realmente, um tipo inteligente. Tenho de ver se combino um almoço com o gajo, bebemos um bom tintol e o gajo ensina-me mais qualquer merda. Nunca mais me esqueci, no dia do corta-mato, plantámos uma árvore e a ideia foi dele, do meu padrinho. Por isso, estão a ver.
Carne ou frango
É verídico, já me aconteceu duas vezes. Pergunto de que são as empadas, ao que as tipas respondem: "De carne e de frango".
O Antunes e o copo de cerveja
O Antunes caiu dentro de um copo de cerveja. Estava tudo a correr muito bem. Mas o que se passou foi isso mesmo. Parece que sem dar conta caiu dentro de um copo (talvez uma caneca) de cerveja. Tentaram proceder o salvamento. Chamaram-se tipos competentes e isso. Mas tudo o que se sabe é isso mesmo, apesar de várias pessoas virem dizer que isso é impossível, que ele e a Tina mudaram-se foi para o Algarve, uma comunidade qualquer, com tipos que andam nus e vivem da luz do sol. Dá para rir. E ainda dizem que lá se fazem muitos crepes e isso, com relva e bolotas que apanham lá no meio do mato. Mas eu sinceramente, não é para querer ser do contra, mas acredito mais na versão do copo, não sei, acho mais provável. Sabendo eu bem quem é o Antunes. Porra, é como se estivéssemos a falar da mesma pessoa, eu ou ele. Mas estava a dizer: copo ou caneca, uma coisa dessas, é igual. Agora, lá dentro mesmo do copo ou caneca não sei o que se passa. Já tentei ligar, tem o telemóvel está desligado. O Antunes não tem caixa de correio activa. Teve, em tempos. Acho que era uma música dos Guns. Depois tirou porque deixou de se divertir com aquilo. Enfim. Ultimamente sabia que andava preocupado, acho que uma fã ou qualquer coisa do género, a culpa foi do blog. Ela ficou a gostar muito do Antunes e depois toca a ameaça-lo, quer dizer comprava coelhinhos e coisas a dizer amo-te. Acho que a Tina não gostou, mas daí a cair no copo, não sei. Pá e ele nunca foi dessas confusões. Agora se foi por isso que ele deixou isto, não sei. Talvez chamá-lo de volta. Não sei, tirá-lo fora do copo, se der. É difícil.
Nota explicativa: Isto era eu na reinação. Provavelmente para justificar a minha ausência. Entrei em contacto com gente de outros planetas. Foi giro. Foi mesmo giro. O qwerty era o mais porreiro. Andava sempre com uma mochila às costas onde transportava uma tartaruga gigante. E nunca tomava banho, o porco. Prometeu que vinha cá, eu fazia-lhe um chouriço assado e bebia uma pinga, mas o gajo tinha agendado ir ter com outro tipo que tinha conhecido numa visita de estudo a neptuno.
Ai a minha vida
Engordei três quilos desde que ajudo no restaurante do pai da Tina. As calças apertam-me e temo não poder a voltar a vestir as levis em segunda mão oferecidas pelo Tó, trouxe-me o gajo quando foi a uma visita de estudo a Londres. O Tó é um tipo porreiro, é o meu melhor amigo. Não tenho falado nele porque o gajo está a estudar na Holanda e um tipo esquece-se. Esquece-se, quer dizer. Não me esqueço dele. Porra. Um porreiro do caraças. Meu amigo desde os 16 anos. Costumamos ir para os copos e apanhamos sempre grandes fardas. Depois acabamos a cantar ou a comer croissants de uma confeitaria em Matosinhos que tem os melhores croissants do pais. A sério. Nunca comi uns croissants tão bons. O gajo é nadador do caraças, um atleta como deve ser. Já ganhou medalhas e tudo, o boi do caraças. O gajo agora anda a curtir em Amesterdão e eu aqui. Porra sinceramente. Mais miserável é impossível. De vez em quando manda-me uns mails com umas fotos de uma gajas bem boas e o tipo lá no meio enroscado nelas, tudo já bem atestado com canecas de cerveja e o caraças. Outro dia manda-me uma, o gajo em tronco nu, com um boné do Porto, palito ao canto da boca agarrado a um barril de cerveja. É mesmo atrasado mental aquele Tó. Abraço meu boi.
Calendário Pirelli
O Jonas está nos hospital. Sofreu um acidente vascular cerebral e é bem capaz de não recuperar. Coitado. A mulher dele está desesperada porque não tem ninguém para segurar a loja e, como sabem, o rendimento deles vem exclusivamente da pinga. Não percebo bem a urgência disso da loja. Para além de ricos, acho que nesta altura é mais importante procurar enfermeiras ou tipos que possam ficar com o Jonas durante a noite do que um empregado para a loja dos vinhos. Mas as pessoas surpreendem-nos nas alturas menos prováveis. Um exemplo que ilustra bem esta frase que acabei de escrever, é a Paula. Outro dia parou para pôr gasolina. Entra na bomba, finge que não me vê e dirige-se para pagar na caixa do Zé. Eu estava a contar quantos smarties há num canudo e preferi continuar com os olhos baixos a ver o que é que ela fazia (a nossa relação após o fim do nosso namoro, mantinha-se cordial e educada, pensava eu). Antes de sair ouço a voz dela, bem alto do fundo: “PALHAÇO”. Esta mulher é doente, no mínimo. Palhaço? Eu? Eu? Palhaço? Eu sou o António, não sou palhaço. Que coisa estúpida. Bem, mas voltando à questão do Jonas. O meu pai combinou com ela e fui lá a casa falar e em princípio começo o mais breve possível. Enquanto não trato de tudo na bomba (terei de desistir da bomba aos dias da semana) parece que é uma sobrinha solteirona deles que vai remediar a situação. Estar mergulhado numa fase de profundas mudanças anima-me por um lado, mas por outro desespera-me com violência. Há mais novidades. Ao fim-de-semana à noite tenho ido ajudar o pai da Tina que tem um restaurante em Areosa. Sirvo à mesa e ajudo na cozinha. Para ganhar euros extra, acordei com o Sr. João (pai da Tina) limpar talheres até aquilo fechar. A Tina costuma estar lá (é ela que faz a mousse de chocolate) e prepara-me pratos especiais. O melhor é um bife praticamente cru com molho de alho! É fantástico, porque para além do cheiro da carne crua inspirar-me de forma decisiva, é uma forma saborosa de evitar panikes e lanches mistos. Ela apresenta-se normalmente muito sexy e extremamente apetecível, apesar de achar que é, talvez, um bocadinho alta demais. Aliás, eu dou-lhe pelo ombro, o que, num cenário de eventual romance, não é, de todo, agradável. O tipo que vende bonecos da Expo é um gajo absolutamente doido. Outro dia fui para os copos com ele e o tipo é um gajo impecável. Jogámos uma partida de bowling e quando já estávamos bastante bebidos perguntei-lhe se era ele que andava a dizer que eu andava a roubar na bomba. O gajo ficou basicamente incrédulo e disse: “Porquê? Era segredo?”. Dá uma gargalhada com tanta vontade que se acaba por engasgar. Gostei do humor do gajo e depois disso dei-lhe um abraço com uma grande e repetida palmada nas costas, que também o ajudou na questão do engasganço. O gajo é porreiro e, para além de tudo, é um gajo que não faz praticamente nada, o que naturalmente cria uma sensação de enorme afinidade comigo.
Ninguém me garante que o Jonas não consegue ver. Vou visitá-lo amanhã e levo comigo um calendário Pirelli.
Help, I need somebody, HELP
Temo que algo de extraordinariamente mau possa vir a acontecer. Não sou bruxo. Mas acho que a culpa só pode ser deste blog. Estou praticamente viciado nesta porcaria e no álcool.
Canção mais ou menos apalermada
Olá boa tarde, queiram fazer o favor de se sentarem, acho que há cadeiras para todos. Quem chegou tarde, pode sempre puxar essas almofadas baratas que estão em cima do sofá e sentar-se no chão. Está tudo? Ora bem, aqui vai,
O meu nome é António A. Antunes e existo há alguns anos, ao contrário do que se diz por aí. Dizem-se muitas coisas e às vezes coisas que são mentira, perfeitas calúnias, disparates monstruosos e depois quem se lixa sou eu, porque neste caso, é de mim que se fala. Pois. Queria ver se fosse convosco. Quer dizer, eu nem vos conheço. Ou conheço-vos mal, tirando dois ou três casos. Desculpem, mas borrifo-me de forma considerável para o que vos acontece, desde que não seja uma coisa grave, como é, por exemplo, a negação da vossa existência (quer ela seja inútil ou não). Isso é um assunto grave e sério, como devem imaginar. Caso não consigam imaginar, por favor esforcem-se um bocadinho. É provável que também vocês descubram que há uma forte possibilidade de estarem a ser confundidos com fantoches ou espantalhos mal vestidos. Enfim. Como prova de que tenho um nariz, apito no trânsito e et cetera e tal, vou. Não, não chorem, não pensem que vou abandonar o barco. Para além de ter uma simpatia geral pelo que aqui acontece, tenho orgulho suficiente e estou longe de estar deprimido. Há também coisas que gosto bastante e das quais não abdico de forma alguma. Falo do meu cão e dos comentários absurdos da dona Olga (penso que nunca vos falei dela). Não vou deixar aqui o número de contribuinte, mas uma canção que fiz quando tinha por volta dos dez anos. É assim:
Na minha casa há uma cozinha
No canto é onde dorme o Jeco
Gosto de comer pão com tulicreme
e andar de bicicleta
Gosto de brincar com fisgas
O pato Donald é maricas
O pato Donald é maricas
(estas duas frases acrescentei-as mais tarde, num momento de idiotice)
O ritmo é de uma música, que não sei o nome, dos queijinhos frescos e da Ana Faria. Se isto vos soou, de alguma forma, estranho, aviso-vos que têm, obviamente, toda a razão. Portanto, é isto. Já está. Podem ir embora.
Desentop
É lixado. Especialmente quando temos a mania que somos o rambo ou o mestre André. Passo a explicar. A minha sanita entupiu. O meu pai diz que a culpa não foi dele, mas talvez seja mentira porque eu, a minha mãe e a minha irmã, tínhamo-nos servido dela antes, sem qualquer problema. Comecei com a escova a tentar alcançar nas profundezas qualquer coisa que fosse o motivo do entupimento. Às vezes, dos bolsos das calças, caem os objectos mais surpreendentes. O meu pai começa a pressionar: “Sai daí, deixa-me ver isso.” O meu pai não gosta de bricolage, nem tem paciência para qualquer tipo de trabalho que exija calma e concentração. A certa altura começa a puxar o autoclismo várias vezes seguidas e eu mando-o estar quieto e ir buscar-me uma vassoura. Eu sentia qualquer coisa lá ao fundo e não me estava a apetecer meter o braço por ali a baixo. De repente (antes do meu pai chegar com a vassoura) a água começa a subir e a transbordar devagarinho. Os meus pés ficam ligeiramente molhados (estava descalço) e vestígios de papel higiénico desfeito vêm à tona. É nojento, mas muita sorte tive eu em não encontrar fragmentos de poios, ou isso. É nessa altura que decidimos ligar para os tipos do desentop. Passo a transcrever o magnífico slogan desta empresa: 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano (porreiro pá, estes gajos preocupam-se mesmo com o próximo, é bonito). Passado dez minutos, chegam dois tipos com mau aspecto e, um deles, com desagradáveis vestígios de um problema de acne mal resolvido na adolescência. Traziam umas sweat-shirts amarelas com a palavra desentop estampada, atrás, a letras garrafais. Ridículo. Pareciam dois palhaços. Sacam de material topo de gama. Ele eram tubos, ele eram aparelhos eléctricos, ele era tudo. Metem aquilo por ali a baixo. Diz o tipo, passado meio minuto: “Já detectámos os problema”, diz o meu pai: “Ai sim? Então estamos com sorte, carág. Deve sair baratinho.” “É assim, nos nossos serviços há um parte, que é esta, em que paga pela identificação do problema. Depois, dependendo da gravidade, da dificuldade de resolução... Isso depende. Isso é outra parte.” Portanto. Não sei se me expliquei bem. Com a desentop pagamos, numa primeira parte, para que nos identifiquem o problema e, depois, numa segunda fase, pagamos para nos resolvam, efectivamente, o problema anteriormente detectado. Uhm. Parece-me justo, não? Em nove minutos o serviço ficou pronto (ena, eles são bons). Antes dos anormais arrumarem os tubos e porem os kispos com desentop estampado nas costas (patéticos) o meu pai passa-lhes um cheque no valor 120 euros. A mim, dá-me uma imensa vontade de mandar um grande pú.
O que é que eu fiz?
Ontem, quando cheguei a casa às seis e meia da manhã, descobri a minha mãe deitada no sofá. Foi assustador, parecia mesmo o papão, o homem do saco ou um desses tipos diabólicos, ladrões ou assim. Estava embrulhada na manta ao xadrez, que eu recebi da minha Tia Céu, num Inverno em que me constipei muitas vezes. Na mesa, um pacote de rebuçados da régua a meio, uma caixa de lenços kleenex e uma garrafa de compal ligth manga-laranja. A televisão, baixinha no discovery channel, rematava de forma perfeita aquele cenário perfeitamente grotesco e ameaçador. Tentei avançar sem fazer barulho, mas ela chamou-me:
António?
Sim?
Que horas são?
Devem ser quase sete, não tenho relógio. O que é que estás aí a fazer?
Aproximei-me do sofá e fiquei de pé. Estava bastante cansado, tinha ido fazer um bocado de natação (tenho notado um pneu detestável na zona abdominal) antes do trabalho e não me apetecia estar ali em conversas.
Senta-te aí, meu filho.
A minha mãe estava com uma cara abatida e com o cabelo despenteado, o que era deveras extraordinário, já que a cabeleira dela está sempre impecavelmente tesa.
O que é que foi?
Senta-te.
Os meus pais estão casados há trinta anos. O divórcio era pouco provável.
Estou preocupada contigo.
Comigo?
Tu andas bem?
Ando, porquê?
E na bomba?
Na bomba tudo bem. O que é que.. não estou a.
É que andam aí a dizer.
Andam aí a dizer o quê?
Que tu andas a roubar na bomba.
Alto. Eu nunca na vida roubei o que quer que fosse daquela merdosa e miserável bomba de gasolina. Roubar? Até podia ser um tipo que gostasse muito de chocolates e, para quem gosta muito de chocolates, uma bomba de gasolina é um local muito perigoso. De resto, aquelas madalenas e aqueles foleiros pacotes de bolachas não são puto atractivos.
Roubar? Quem é que disse isso?
A Adelina do segundo andar diz que ouviu dizer.
(A Adelina do segundo andar é a velha das hemorróidas que falei num post antigo)
A Adelina do segundo andar? A gaja é totalmente doente.
Exaltei-me de uma forma bastante irracional. A verdade é que não estava a perceber como era possível cair sobre mim uma acusação dessas.
Tu não precisas de roubar filho. O que é que te faz falta? Diz-me que eu e o teu pai, se pudermos..
Não ouvi mais nada e fui para o quarto. Tirei o telemóvel do bolso. Tinha uma mensagem da Tina, que tinha chegado com atraso: “Vim à ribeira beber um fino e lembrei-me que tenho uma garrafa de um tinto m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o lá em casa para ti. Podíamos combinar qualquer coisa amanhã. Beijos.” Estarei, de alguma forma, a dar falsas esperanças a esta simpática rapariga de cor? Ela até é uma tipa porreira, mas não estou, definitivamente, virado para desenvolver qualquer tipo de affair com quem quer que seja. Houve uma altura que pensei que me estava quase apaixonar, mas rapidamente cheguei à conclusão que sou apenas um tipo que se ilude com muita facilidade. Foi como uma vez, em que me tentaram dar vitela assada no forno como se fosse leitão da bairrada, e eu acreditei. Talvez quem acabe por lucrar com isto tudo sejam os tipos das campanhas publicitárias dos hipermercados e assim. O facto de ser um bocado lorpa deixa-me, por vezes, nervoso, mas a verdade é que tenho convivido de forma saudável com a minha pessoa durante estes anos. E, é mesmo impressionante como ter um blog acaba por aumentar a minha auto-estima. Claro que há dias em que me sinto um autêntico imbecil por continuar com isto. Enfim. Depois, para animar, costumo ler um patinhas (almanaques "hiper" dos antigos) e fica tudo bem.
nota: Há um tipo bastante para o palerma, que anda lá de vez em quando pela bomba a fazer umas promoções tenebrosas a umas coisas que ninguém comprar (desta última vez era o boneco Gil, aquele idiota da tromba azul). Às tantas, o gajo quer é queimar-me para ver se apanha o meu lugar. Não o posso acusar sem ter provas, mas vou tratar de tirar esta história a limpo.
O domingo é uma chatice
Hoje estou de folga. Tomei um banho de imersão demorado e depois fiz um ovos mexidos com presunto. Os meus pais e a minha irmã (suponho que o meu futuro cunhado também) foram almoçar a uma churrasqueira em Valongo e ainda não chegaram. Os tipos têm um frango com piri-piri delicioso, mas lá dentro há um fedor insuportável a fritos que me deixa vagamente deprimido. Ainda pensei em convidar a Tina para vir cá a casa, mas estou com muita preguiça e sem saldo no telemóvel. Daqui a um bocado vou fazer crepes (descobri um site porreiro com mais de 50 receitas de crepes) e abrir uma cerveja. Talvez faça crepes mistos. Depois vou-me sentar no sofá e ver as presidenciais. A política não me interessa particularmente, mas há qualquer coisa de cómico naquela palhaçada toda. Não tenho o hábito de votar, mas quando o faço, chego a casa mal disposto e um pouco enjoado. Acho que isso tem a ver com o facto de não me acreditar em quase nada. Sou um tipo céptico, por natureza.
A explicação
Tudo começou num dia de sol. Estou a brincar. A culpa foi, em parte, da minha professora de primária, a professora Ana Teresa. Uma vez, dei um erro terrível numa composição. Lembro-me bem, era um texto sobre o Outono e eu impliquei com a palavra. Escrevi “Outobro” e a Ana Teresa, que era uma tipa implacável e feroz, mandou-me, de castigo, escrever Outubro cem vezes. Podem imaginar o que é escrever cem vezes a palavra Outubro. Foi especialmente traumático, porque às tardes, costumava ir brincar com o Pipas. O Pipas era um amigo meu bastante rico. Na casa dele havia bichos embalsamados nas paredes e, num canto priviligiado do escritório, uma máquina fotocopiadora! Uma máquina fotocopiadora! Naquela altura, ter uma máquina fotocopiadora em casa era muito provavelmente o mesmo que termos, actualmente, uma central nuclear dentro da nossa casa de banho. Impressionante. Ainda hoje, uma simples resma de papel de máquina faz-me lembrar o Pipas. Grande Pipas, que andará ele a fazer? Coitado, o tipo tinha problemas com ácaros e desconfiava-se que também era alérgico ao leite. Ao lanche, a empregada ia-nos comprar bolicaos à mercearia da esquina e era mesmo porreiro porque a mãe do Pipas deixava-nos levar copos de vidro com tang de ananás (cor de chichi) lá para fora. No jardim (com piscina em forma de héxagono, ridículo) entretínhamo-nos a fuzilar minhocas e espremer formigas. Depois fazíamos as respectivas celebrações fúnebres e eu, quase sempre, voltava para casa com uma náusea terrível e alguns problemas morais. Consciência ética bastante desenvolvida para a idade? Talvez. Dizem que em miúdo era um tipo estranho, o que não me admira. Mas como estava a dizer, nesse dia tive de ficar em casa a escrever a palavra Outubro. E dei por mim a pensar que talvez fosse boa ideia ser bom naquilo, no português. Não dar erros. Lembro-me da borracha que tinha à minha frente quando tive este pensamento, era uma pelikan das verdes, que saudades... as velhas pelikans verdes. Melhor que não dar erros, só mesmo ser poeta. É claro que na altura, não pensava concretamente nestes termos, mas mais tarde, talvez muito por influência de um professor que tive no secundário, o professor António Velhote, imaginei-me várias vezes como o verdadeiro poeta marginal. Esse tipo (o professor António Velhote) era absolutamente doido, uma vez a meio de uma aula, saca de uma maçã (tipo golden) e põe-na em cima da mesa. Depois diz: “Vão olhar para esta maçã durante o tempo que eu disser e depois quero que façam um poema.” Achei o desafio maravilhoso e lembro-me que escrevi qualquer coisa relacionada com o deserto e formigas. Era uma coisa absurda por completo, mas o professor deve ter gostado, aliás chegou mesmo a oferecer-me um livro com poemas de Antero, que li numa noite de S. João deprimente passada em casa dos meus avós. Isto tudo para explicar a minha relação com a língua portuguesa e aproveitar para agradecer os comentários favoráveis à minha escrita. Professora Ana Teresa, Professor António Velhote, um muito, muito, obrigado.
Rodapé: Como fui tirar um curso de gestão? Porque trabalho numa bomba de gasolina? Podia divagar sobre isso num próximo post, mas acho que a resposta não estende muito para além do simples facto de eu ser um tipo miserável. E há outra coisa que é, este blog, não ser, de todo, um diário. Por isso, essas explicações talvez não sejam, de facto, pertinentes.
Alien
A minha irmã vai casar-se em Setembro deste ano. A situação era incontornável, tudo bem. Já bebi duas águas das pedras desde que soube a notícia, hoje ao almoço. O meu futuro cunhado gosta de jogar badminton e diz que acredita "um bocado" em aliens.
Hoje, não consigo escrever.
Outra vez, o metaleiro
A minha ex-namorada Paula (quem não a conhece, sugiro a leitura do post “Pizza Havaiana”) está a viver um romance (a notícia é oficial) com o metaleiro, o rei dos dardos. Encontrei-os no cinema, a dividirem amorosamente um pacote de pipocas e meio litro de Coca-Cola (ou talvez Fanta, a Paula adora Fanta). Achei o quadro comovente e, de certa maneira, fiquei aliviado, porque talvez a Paula me tivesse esquecido por completo (eu só penso na Tina). Ela veio ter comigo, perguntou pela minha mãe e disse que tinha em casa umas rabanadas para lhe levar (umas rabanadas? Oh pá). A Paula e a minha mãe sempre se deram bem. Acho que isso se deveu, em parte, aos finais de tarde que passava lá em casa com a minha mãe a ensinar-lhe croché e coisas do género. Quando acabámos a minha mãe chorou ininterruptamente durante duas semanas. Pediu-me para ficar com o coração de cetim rasca com um I love you já desbotado que a Paulinha me deu quando fizemos um ano de namoro sob o pretexto que: “Oh! Filho ficava tão bem em cima da nossa caminha!” (Pai, como eu te compreendo!) Fez-me também prometer que ficaria solteiro para sempre, caso não voltasse para a Paulinha. É óbvio que fiz o juramento com figas. Tenho suspeitas que terá também rezado bastante porque vi uma fotografia de nós os dois na barragem de vilarinho das furnas encostada à imagem de um santo, que suponho que seja um santo qualquer que tenha habilidade na questão de casais em ruptura. Achei aquilo das rabanadas absolutamente ridículo e disse-lhe para não se preocupar porque nós ainda estávamos a arrotar a aletria e a bolo-rei. Era uma tentativa de aliviar o ambiente. Eles não acharam piada. É aí que o metaleiro me pergunta se eu sei de uma gasolina mais barata que há ali para os lados do Carrefour. Disse-lhe que não sabia. E o tipo, contrariando a imagem decadente do intovertido infeliz e problemático órfão do heavy metal, esboça um sorriso estupidamente alegre e sarcástico: “Então trabalhas numa bomba de gasolina e não sabes o preço da concorrência? Eh, eh. Devias saber, não?” Aquele comentário arruinou por completo a integridade da minha pessoa, fazendo-me sentir um sabor azedo e áspero na garganta (tinha estado a comer amendoins) seguido de uma vontade exacerbada de o rebentar. Optei pela calma, aliás como sempre: “Ai não sabem? Eu deixei a bomba. Eu agora estou a trabalhar com o Jonas, aquele amigo do meu pai.” A Paula pergunta: “O dos vinhos?” Eu: “Sim. O dos vinhos.”
Eu, que nunca minto, tinha agora acabado de dizer uma meia-mentira. A verdade é que o Jonas já tinha falado com o meu pai sobre a possibilidade de eu ir trabalhar com ele. Eu é que sou um tipo preguiçoso e nunca me dei ao trabalho de avaliar concretamente a proposta. Tenho de falar com o Jonas. Talvez o meu futuro passe por aí. E depois, vinho é vinho.
A mulher que embrulhava carrinhos e dominós
(Ontem, ao tirar as meias, lembrei-me de um episódio que tinha ficado esquecido e que é um magnífico case study para todos aqueles que, de algum modo, se interessam pelo estudo do comportamento humano, em específico da ... pura maldade humana)
Tinha ido ao Froiz comprar os meus últimos presentes de Natal. Quando saí estava uma mulherzinha infeliz (mais tarde viria a classificá-la antes como uma autêntica besta infeliz) a embrulhar carrinhos, dominós e essas coisas, num balcão que pertencia a uma loja de brinquedos. Eu precisava de uma etiqueta para colar um pequenino cartão de Natal no saco onde estava a prenda da minha mãe. Para a minha mãe tudo o que é estrangeiro é bom. Neste Natal, optei por lhe oferecer uma espécie de mini-cabaz com galletas, zumos, chocolate a la taza e os entalados que os tipos têm lá - ela adorou. Adiante. Perguntei à tipa se podia tirar uma etiqueta (comprar fita cola estava, definitivamente, fora dos meu planos). Reparem, uma etiqueta, uma etiqueta é uma coisa para custar quê? 1,7 cêntimos, se tanto. Isto, se for uma etiqueta daquelas grandes, que dá para escrever muita coisa e isso, mas aquela era uma etiqueta do tamanho de uma unha, uma autêntica caganita, estão a ver? Uma etiqueta que co-habitava com, talvez, milhares, milhões de outras etiquetas gémeas (o rolo era gigante). Que diferença fazia? Oh, meu Deus! Era só uma. Pergunto-lhe com um ar simpático, educado, gentil, pacífico. Eu era o indefeso, o totó e o gajo que não faz mal a ninguém ao mesmo tempo: “Posso tirar uma etiqueta, se faz favor?” Ela, olha de esgueira para mim e, tão desconfiada, diz: “Não”. Não?? Minha amiga recordo-te que é Natal, é suposto sermos todos amigos, pensei. A tipa parecia mesmo ofendida. Chocada, vexada, abusada, a caminho de uma severa exterminação. Como se lhe tivesse perguntado se lhe podia roubar um rim ou uma outra coisa igualmente horrível, que arruinasse a sua miserável vida para todo o sempre. Isto deixou-me deprimido. Tenho sérias dúvidas se esta não terá sido a negação mais cruel da minha vida. Ela era má.
2º Episódio
1.
Sobre a minha consoada. Talvez seja pouco relevante dizer que houve os habituais excessos alimentares e as suas previsíveis consequências. Passo então à fase seguinte. O meu primo puto recebeu um kit de karaoke foleiro, o que fez com que acabassem todos a cantar hits do Bryan Adams. Que bonito. A minha avó a abanar o pézinho e a minha mãe, com um jeito estupidamente desajeitado, a fazer qualquer coisa que se assemelhava a uma dança tribal. As pessoas deviam ser proibidas de dançar quando chegam aos trinta e cinco. Sinceramente. O meu Tio Fino não cantava, o parvo. Tinha aquela atitude superior e chegou mesmo a dizer, com ar de gozo: "Isto do karaoke é uma coisa um bocadinho primária, não é?". Idiota. Talvez tenha sido nesse momento, de puro convívio, que senti toda a complexidade do meu agredado familiar e restantes. Éramos vagamente desprezíveis. Para atenuar, fui ao congelador e tirei um bocado de carne que descongelei no micro-ondas. Estava mesmo a apetecer-me um bife no pão, antes de me deitar.
2.
Tenho de confessar. Acho que há uma forte possibilidade de poder vir a apaixonar-me pela Tina. No dia a seguir ao Natal telefonei-lhe para irmos tomar café. Ela aceitou de imediato. Passámos uma tarde nostálgica em casa dela (afinal o tipo mauzão do opel kadett é irmão dela. Um tipo com problemas psicológicos graves. É bipolar. Uma coisa que o faz estar, ora depressivo, ora eufórico) Fizemos bolachinhas de manteiga e bebemos um resto de vinho tinto (era praticamente a garrafa inteira) que tinha sobrado. Não deu para ficar bêbado, mas foi o suficiente para podermos ter uma conversa minimamente interessante. Fiquei com a sensação de que somos ambos tipos algo desequilíbrados e perto da loucura, o que não é mau, necessariamente. Conheci o seu cágado (o bicho é simpático) e falámos um pouco da bílis, o que casou algum constrangimento, pois a Tina, ao que percebi, é uma rapariga muito sensível e amiga dos animais. Abandonei a sua casa ao fim-da-tarde e quis ir comprar-lhe qualquer coisa como uma prenda de Natal, mas as lojas estavam todas fechadas.
3.
Amanhã é a noite de passagem de ano. Eu vou estar de serviço. Talvez convide a Tina para ir até à bomba. Sei que não é o mesmo do que jantar à luz das velas a beber champanhe ou cerveja, mas também não é assim tão mau. Para além do mais, não existe, entre nós, qualquer tipo de compromisso.
Natal
1º Episódio
O meu Natal foi trágico. Passo a explicar, por partes. Em primeiro lugar, é no Natal que encontro o meu Tio Zeferino e, em segundo lugar, é no Natal que tomo consciência da família disfuncional à qual pertenço. Há outros factores, menos relevantes, que também ajudam a um desespero psicológico latente: ter de fechar o Jeco na dispensa (a minha avó é alérgica ao pêlo do cão) e ser obrigado a fritar as rabanadas (acho que tem a ver com a minha sensibilidade para a cozinha). O meu Tio Zeferino (nós tratamo-lo por Fino) é daqueles gajos que tem sempre um sorriso pregado na boca. Quando era mais novo perguntei-me muitas vezes se o tipo era só estupidamente alegre ou antes, o gajo mais cínico do mundo. É impossível continuares a rir quando alguém te diz “Ó Fino, vai mas é dar banho ao cão.” Ou quando, por exemplo, descobres que há três anos que a tua cunhada te oferece lenços de assoar no Natal. Isto é verídico. O gajo não ri alto. Uma gargalhada, para ele, é esticar mais a boca, ficam-se a ver mais os dentes de trás e pronto, é esta a gargalhada dele. Que patético. É profundamente angustiante ver um tipo que não faz barulho a rir. Fiquei a detestá-lo mais um bocadinho neste Natal. Explico. Decidi telefonar à tipa preta (a partir de agora chamá-la-ei pelo seu nome diminutivo, Tina) a desejar bom natal. Estava na casa de banho, convencido que seria o único sítio onde poderia ter alguma privacidade para efectuar o chamada, pois, pois. Ela não sabia quem eu era e eu identifiquei-me como o António da bomba. Acho que quando ela percebeu quem eu era, ficou um bocado desiludida porque disse um ahh meio distante. Agora era tarde para abandonar o barco. Portanto, desejei-lhe bom Natal e menti-lhe dizendo que já tinha iniciado as buscas para a encontrar a gata, mas que neste momento as investigações estavam suspensas por causa do Natal. Ela disse-me que já tinha um animal de estimação novo, um cágado, e que até estava a fazer um esforço para esquecer a bílis. Aquela mulher tinha, de certa maneira, algum sentido de humor. Eu fiz uma deixa que parecia adequar-se à situação, tipo: “Ano novo, vida nova” e ri-me, feito atrasado mental. Ela deve ter achado piada porque também se riu, ou então gozava-me, não sei. Devo dizer que, para fazer este telefonema, tive de beber um gin tónico e depois um copo de vinho do porto (o gin era foleiro). Só desta forma, tive ainda lata para lhe perguntar o que é que ela ia fazer no ano novo. Ela disse-me que não sabia. Eu disse-lhe que também não. Depois ela disse-me que se chamava Tina e, depois de várias tentativas, acertei no seu nome verdadeiro, Márcia. O diminutivo Tina surgiu depois de ela ter dito a um amigo “Está calor”. Pelos vistos, o tipo respondeu-lhe :“Ó Márcia, tu atina”. E, a partir daí, ficou Tina. Ela não gosta de Márcia, por isso, até foi bom. Quando desligo o telefone, tenho o meu Tio Fino à porta da casa de banho. Com o sorriso parvo. Ele diz: “Está sossegado que eu não digo à tua mãe. Quem é ela?” Continua com o sorriso e eu acho que lhe vou espetar um testo: “Ela quem?” “Ó, ó, ela quem? Eu ouvi tudo, pá” Meus Deus, será que não és capaz de parar de rir por um segundo? “Tio deixe lá isso. “Ai Tina, Tina.” Nessa altura apaguei a luz da casa de banho e quando me afastei, disse baixinho: “Ó Tio vá fazer cocó, está bem?” Ele segurou-me na manga da camisola, mostrou-me os seus dentes de trás e o seu sorriso matou-me.
To be continued...
O caso da gata desaparecida
Ontem vi a tipa preta, a dona da gata bílis, a correr pelo passeio. Vi-a de dentro da bomba, mas tenho a certeza que era ela. Reconheci-a pelo boné e pela altura (a tipa é mesmo alta).Não pude sair atrás dela, o Tó Jó tinha ido não sei aonde e eu estava sozinho na bomba. Foi chato. Seria muito importante para mim falar com ela. Queria acalmá-la, dizer-lhe que não havia novidades da gata. Queria também dizer-lhe para não desesperar, pois estava a planear uma busca exaustiva com o meu primo Filipe. O meu primo Filipe é um tipo perito em descobrir coisas. Também é melhor do que no que diz respeito ao conserto de coisas avariadas ou estragadas. Mas, voltando à história: Era possível que ela estivesse a fugir do gajo do Opel Kadett. Teria tido finalmente coragem para se livrar daquele atrasado mental? Porra, porque é que eu não saí atrás dela? Não, mas e se ele estivesse furioso, uns metros mais atrás, preparado para a espancar? Se assim fosse, havia uma forte probabilidade de eu também ser apanhado e espancado pelo tipo. E, de qualquer das maneiras era impossível abandonar a bomba. De madrugada, no quarto olhei para a folha onde tinha apontado o número da preta (sinto-me um pouco incómodo a chamá-la de preta, mas, na realidade não sei o seu nome). Peguei no telemóvel e marquei o número. Nesse momento, antes de carregar no sinalzinho verde, a minha mãe puxou o autoclismo, merda, tinha acabado de destruir o meu plano. Na verdade, talvez fosse mesmo estúpido, uma asneira terrível telefonar-lhe a dizer que não tinha encontrado a bílis. Antes de desligar a luz fiquei ainda alguns minutos a pensar nela. Aquela mulher intrigava-me. Tinha de arranjar coragem para lhe telefonar.
I love Portugal
Hoje assisti, provavelmente, a umas das cenas mais hilariantes da minha vida. No autocarro vinha um tipa magricelas com dois filhos. Um dos putos começa a bater em qualquer coisa, a improvisar uma espécie de batucada infantil desastrosa. É normal, tudo tem o seu tempo. A criança ainda não tem idade para perceber que a melhor coisa que se pode fazer dentro de um bus é observar e ouvir as conversas dos tipos que estão à nossa volta. Um gajo que estava na última fila começa a mandar vir com o puto. Não percebi se o gajo era doido ou estava só a dar tanga. A verdade é que, se quis divertir a plateia teve, em definitivo, bastante sucesso. Falo por mim, naturalmente. A mãe não achou piada nenhuma: “O menino está a fazer algum mal? Até parece que está a faltar ao respeito ao senhor.”Entretanto já metade do autocarro tinha os olhos postos nesta cena. E claro, há sempre bitaites que se mandam: “Ó deixe tar o menino.” “O menino está tão sossegadinho. Deus me livre.” O menino e o irmão riam, parece que tinham entrado numa espécie de cumplicidade proibida com o gajo. O ponto alto estava para vir. O tipo, de lá de trás, sai-se com esta: “A samba já chegou ao Brasil?” (observação relevante: eles eram mulatos) A mãe aí fica furiosa: “Ele é português, nasceu ali no hospital... é português nascido em Portugal.” E repetiu esta frase mais de quatro vezes: “Ele é português. Eu sou portuguesa. Ele é português. Eu sou portuguesa. Ele é português. Eu sou portuguesa.”E o tipo: “Eu também sou português e bom cidadão, quer que lhe prove?” Uma senhora que estava ao lado do tipo não se conteve: “O senhor, se fosse bom cidadão português não dizia isso a uma criança. A criança não está a fazer mal nenhum. Um bom cidadão português não diz isso a uma criança.” A mãe estava doida: “Ele tem esta cor, mas é português, está bem?” Uma senhora mortinha por intervir: “Ó, e quem tem a cor?” E outra: “O que interessa é o que está cá dentro.” Brilhante! Metade do autocarro em simultâneo: “Pois, claro.” A melhor intervenção veio logo a seguir, feita por uma tipa cheiinha, cabelo pintado de loiro e que trazia muitos sacos ao colo. Disse isto com um ar muito sério, o que à partida lhe conferia alguma credibilidade: “Portugal descobriu o Brasil, por isso somos todos irmãos.”Perante isto, calou-se toda a gente e eu achei melhor pegar num caneta e escrever na senha o que tinha acabado de ouvir.
Nota: Mais tarde, em casa, perdi algum tempo a pensar. Em que é que Ser um bom cidadão português tem de diferente em Ser um bom cidadão checo, por exemplo? Provavelmente a mulher ao dizer "O senhor se fosse um bom cidadão português.. " queria apenas ter dito "O senhor, se fosse um bom cidadão." Talvez na descrição de bom cidadão português esteja naturalmente implicita a ideia de alguém que é compreensível com as criancinhas, não sei.